
Dois irmãos gêmeos siameses, Marcos e Mateus, que haviam nascido na última terça-feira (6) em Goiás, morreram nesta quinta-feira (8) após complicações de saúde decorrentes de cirurgias realizadas nos últimos dias. Eles estavam internados na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) do Hospital Estadual da Mulher (Hemu), em Goiânia, onde o parto foi realizado.
Os bebês nasceram unidos pelo tórax, abdômen e bacia, uma condição rara e de alta complexidade. Um dos irmãos morreu durante a madrugada desta quinta-feira, depois de sofrer sucessivas complicações. O outro faleceu no início da noite, após uma cirurgia de emergência para separação dos corpos.
Segundo o hospital e os profissionais envolvidos, o quadro dos gêmeos exigia cuidados intensivos desde o nascimento. Marcos e Mateus eram siameses isquiópagos triplos, ou seja, estavam unidos pela região pélvica, com uma anatomia ainda mais desafiadora. Eles possuíam três pernas e apresentavam ânus imperfurado, malformação congênita caracterizada pela ausência de uma abertura anal normal.
Logo após o parto, os recém-nascidos permaneceram internados na UTIN do Hemu, onde passaram a ser avaliados por equipes multidisciplinares, incluindo especialistas em cirurgia pediátrica e em casos de gêmeos siameses.
A mãe passou bem após o parto, de acordo com as informações do hospital. Já as crianças precisaram de intervenção cirúrgica precoce para correção das principais alterações que comprometiam funções vitais.
Na quarta-feira (7), os irmãos foram submetidos a procedimentos cirúrgicos considerados essenciais para garantir condições mínimas de funcionamento do organismo. A equipe realizou uma colostomia, procedimento que cria uma abertura no intestino para que as fezes possam ser eliminadas por meio de uma bolsa coletora, e uma vesicostomia, em que é feita uma abertura na bexiga para permitir a drenagem da urina.
Essas cirurgias tinham como objetivo contornar a malformação anal e permitir que o corpo dos bebês pudesse eliminar fezes e urina de forma controlada, o que é fundamental para evitar infecções graves e outras complicações.
Segundo a diretora técnica do Hospital Estadual da Mulher, Cristiane Carvalho, a cirurgia realizada na quarta-feira ocorreu dentro do esperado. Do ponto de vista técnico, os procedimentos foram concluídos conforme o planejamento da equipe.
No entanto, o quadro clínico dos recém-nascidos era considerado delicado desde o início. Horas depois da cirurgia, um dos gêmeos apresentou piora e não resistiu. De acordo com o deputado federal e médico pediatra Zacharias Calil, que participou da operação, o bebê sofreu de três a quatro paradas cardiorrespiratórias durante a madrugada de quinta-feira.
Já o segundo gêmeo ainda se mantinha vivo, embora em estado grave. Diante da nova situação – um dos bebês já havia morrido, enquanto o outro permanecia ligado ao irmão pela união corporal – a equipe decidiu realizar uma cirurgia de emergência para a separação dos corpos.
A operação de separação foi considerada tecnicamente bem-sucedida. Porém, o recém-nascido voltou a apresentar paradas cardíacas durante o pós-operatório e, assim como o irmão, também não resistiu.
“A cirurgia foi realizada com sucesso técnico, porém, apesar de todos os esforços da equipe médica e da neonatologia, o segundo recém-nascido também não resistiu”, afirmou Zacharias Calil ao comentar o desfecho do caso.
O caso de Marcos e Mateus contou com a participação direta de Zacharias Calil (União Brasil-GO), deputado federal e médico pediatra, conhecido nacionalmente por atuar em cirurgias envolvendo gêmeos siameses. Ele participou dos procedimentos realizados no Hospital Estadual da Mulher.
Formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Calil foi o primeiro médico a realizar a separação de gêmeos siameses no Estado. Segundo o próprio cirurgião, sua experiência na área já rendeu inclusive indicação ao Prêmio Nobel de Medicina, em reconhecimento aos trabalhos desenvolvidos com gêmeos siameses e pacientes com doenças raras.
Nas redes sociais, o médico explicou que o caso de Marcos e Mateus era de extrema complexidade, tanto pela forma de união quanto pelas malformações associadas. A condição de isquiópagos triplos, com três pernas e ausência de abertura anal normal, exigia planejamento detalhado e decisões difíceis em todas as etapas.
Calil também relatou o esforço da equipe médica diante das sucessivas complicações. Segundo ele, o primeiro bebê morreu ainda no início da manhã de quinta-feira, após várias paradas cardiorrespiratórias. Diante da morte de um dos irmãos, a equipe avaliou que a separação de emergência era a alternativa possível para tentar preservar a vida do outro recém-nascido.
Apesar do desfecho trágico, o médico destacou o compromisso da equipe com o cuidado técnico e humanizado. “Momentos como esse lembram, com dureza, que nosso compromisso é lutar até o último instante com técnica, responsabilidade e humanidade”, afirmou em uma publicação.
O caso dos gêmeos siameses de Goiás evidencia os limites da medicina diante de quadros de alta complexidade em recém-nascidos. A união pelo tórax, abdômen e bacia, somada às malformações no aparelho digestivo e urinário, tornava a situação extremamente delicada desde o início.
Mesmo com a participação de uma equipe especializada, com experiência em cirurgias de gêmeos siameses e suporte em terapia intensiva neonatal, Marcos e Mateus não resistiram às complicações que se seguiram aos procedimentos.
No Hospital Estadual da Mulher, a prioridade passou a ser o apoio à família após a confirmação das duas mortes. A mãe, que teve boa evolução após o parto, enfrenta agora o luto pela perda dos filhos em um intervalo de poucas horas.
O caso também chamou atenção pela presença de um especialista reconhecido nacionalmente na área, reforçando o quanto a situação era desafiadora do ponto de vista médico. Mesmo assim, os esforços não foram suficientes para reverter o quadro, marcado por sucessivas paradas cardíacas e alto risco desde o nascimento.
Nas mensagens divulgadas, Zacharias Calil ressaltou que, em casos como esse, a equipe tenta equilibrar os avanços técnicos disponíveis com a responsabilidade ética e o cuidado com os pacientes e seus familiares, sabendo que o desfecho nem sempre está sob controle da medicina.

