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02 de fevereiro de 2026 - 19h16
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SÃO PAULO

Ex-pacientes denunciam cirurgião por infecções e deformações após rinoplastias em São Paulo

Polícia investiga ao menos seis queixas contra Alan Landecker; grupo de ex-pacientes estima dezenas de casos semelhantes

2 fevereiro 2026 - 17h45Maria Isabel Miqueletto
O cirurgião plástico, Alan Landecker.
O cirurgião plástico, Alan Landecker. - (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Seis ex-pacientes do cirurgião plástico Alan Landecker registraram queixa na Polícia Civil de São Paulo alegando terem sofrido deformações no nariz e graves problemas de saúde após procedimentos de rinoplastia. Os relatos incluem infecções bacterianas e fúngicas, perda de cartilagem, dificuldades respiratórias e danos ao olfato. As investigações estão em andamento em duas delegacias da capital paulista.

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De acordo com os pacientes ouvidos pela reportagem, os quadros infecciosos surgiram após as cirurgias e exigiram meses de tratamento com antibióticos, além da realização de novos procedimentos corretivos. Um grupo de WhatsApp intitulado “Pacientes do Alan” reúne atualmente 17 ex-pacientes que afirmam ter sido prejudicados. Um deles, que já prestou depoimento, afirma ter identificado ao menos 24 pessoas com relatos semelhantes.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, cinco casos estão sob investigação no 15º Distrito Policial e um no 34º DP. Exames de corpo de delito já foram solicitados, e os laudos seguem em elaboração. “Assim que finalizados, serão analisados pela autoridade policial. A oitiva do médico será realizada no decorrer das investigações”, informou a SSP, em nota.

Entre os denunciantes está um médico que passou por uma segunda cirurgia com Landecker em maio deste ano. Após o procedimento, ele afirma ter perdido o olfato e desenvolvido dificuldade para respirar, além de um quadro infeccioso que ainda exige uso de antibióticos. “Minha qualidade de vida piorou muito desde a cirurgia. Engordei, precisei parar de trabalhar e faço uso de antidepressivos. Foi algo que interrompeu completamente minha vida”, relatou. Ele aguarda acesso aos prontuários médicos para formalizar a denúncia.

Parte das cirurgias foi realizada em hospitais considerados de referência na capital paulista, como São Luiz do Morumbi, Vila Nova Star, Sírio-Libanês e Hospital Israelita Albert Einstein. Após o surgimento das denúncias, Landecker foi afastado de suas atividades no Vila Nova Star, no Sírio-Libanês e no Albert Einstein.

O Ministério Público de São Paulo e o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) também foram acionados. Procurado, o Cremesp informou que os procedimentos envolvendo o médico tramitam sob sigilo, conforme determina a legislação.

A defesa do cirurgião nega qualquer irregularidade e afirma que não há relação direta entre as infecções relatadas e a atuação profissional de Landecker. Segundo o advogado Daniel Bialski, todas as cirurgias seguiram os protocolos adequados e os pacientes receberam assistência antes, durante e após os procedimentos. “Essas infecções surgiram mais de 30 dias depois, por motivos alheios a qualquer conduta do doutor Alan”, afirmou.

Um dos casos que ganhou maior repercussão é o da advogada Marília Veridiana Frank de Araujo, de 38 anos. Ela realizou uma rinoplastia estruturada em maio deste ano, no Hospital Vila Nova Star, com o objetivo de corrigir um desvio de septo e melhorar a ponta do nariz. Um mês após a cirurgia, foi diagnosticada com infecção e exposição de cartilagem.

“Ele me mandou ir para casa tomar remédio, mas resolvi ir ao hospital. Meu rosto ficou deformado, eu estava com infecção no osso”, contou. Após procurar outro médico, foi orientada a realizar nova cirurgia, desta vez no Hospital Albert Einstein, também com Landecker. “O outro médico me disse: ‘como ele não fez uma lavagem no seu nariz? Está completamente podre’”, relatou. Marília acabou passando por uma terceira cirurgia com outro profissional.

Segundo ela, até hoje não teve acesso ao prontuário médico e já gastou cerca de R$ 120 mil com cirurgias e medicamentos. “Eu vivo chorando. Sofro por mim e por cada um dos lesionados. É muito cansativo e estressante”, afirmou. O cirurgião entrou com uma ação contra a advogada por calúnia, injúria e difamação, em razão de publicações feitas por ela nas redes sociais e no YouTube.

Em nota, o Hospital Sírio-Libanês informou que avaliou os casos relacionados ao cirurgião e não identificou falhas nos processos assistenciais. A instituição abriu sindicância ética e administrativa interna, que segue sob sigilo. Já o Hospital Israelita Albert Einstein informou que a atuação de Landecker está sendo analisada pelo Comitê Médico Executivo, com processo administrativo em andamento.

Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS) e da Sociedade Internacional de Rinoplastia, Landecker teve sua atuação comentada pela SBCP, que manifestou preocupação com a gravidade das infecções, consideradas incomuns. A entidade destacou, porém, a formação e a experiência do cirurgião e afirmou que toda intercorrência deve ser investigada para garantir a segurança do paciente.

Outros relatos reforçam o padrão das denúncias. A modelo Sarah Cardoso, de 29 anos, afirma ter sido uma das primeiras a buscar contato com outros ex-pacientes. Operada em outubro do ano passado, ela relata que começou a sentir dores, vermelhidão e secreção no nariz meses depois. “Ele dizia que era um caso raro e fazia a gente achar que a culpa era nossa”, afirmou.

Segundo Sarah, após uma infecção diagnosticada sem exames, precisou passar por mais duas cirurgias, incluindo uma com retirada de enxerto da boca. Ela estima já ter gasto cerca de R$ 200 mil e ainda aguarda novo procedimento. “Ele falava que, se não fosse ele, ninguém ia pegar meu caso. Eu sempre caía na lábia dele”, disse. O cirurgião também registrou boletim de ocorrência contra a modelo por postagens em redes sociais.

Uma das acusações mais graves envolve uma empresária de 39 anos, que prefere não se identificar. Ela afirma que informações falsas teriam sido inseridas em seu prontuário médico. Segundo o relato, após a segunda cirurgia, Landecker já teria conhecimento de um quadro infeccioso, mas atribuiu os problemas a uma suposta rejeição do enxerto pelo corpo da paciente.

“Ele dizia que meu corpo não cicatrizava, que era um caso raríssimo”, afirmou. Após seis meses de uso contínuo de antibióticos, a empresária foi internada por 20 dias para tratamento com antibióticos e antifúngicos, após a intervenção de uma infectologista. “No prontuário consta que exames foram pedidos desde o início, mas isso não aconteceu”, relatou.

A defesa do cirurgião afirma que os pacientes que seguiram o tratamento indicado evoluíram de forma satisfatória e sustenta que não há provas de erro ou negligência nos inquéritos em andamento. “O doutor Alan não pode ser responsabilizado pela forma como alguns pacientes cuidaram de suas feridas ou abandonaram o tratamento”, afirmou Bialski, acrescentando que medidas judiciais serão tomadas contra acusações consideradas infundadas.

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