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15 de fevereiro de 2026 - 16h42
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Estudo aponta que vídeos curtos afetam concentração e saúde mental de crianças

Pesquisadoras da Universidade de Macau associam consumo compulsivo ao baixo envolvimento escolar e à ansiedade social

15 fevereiro 2026 - 15h00
Estudo associa consumo excessivo de vídeos curtos a prejuízos na concentração e no envolvimento escolar de crianças.
Estudo associa consumo excessivo de vídeos curtos a prejuízos na concentração e no envolvimento escolar de crianças. - Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

O hábito cada vez mais comum de assistir a vídeos curtos nas redes sociais, em rolagem contínua pelo celular, pode trazer consequências para o desenvolvimento cognitivo das crianças. É o que indicam estudos conduzidos por pesquisadoras da Universidade de Macau, que identificaram relação entre o consumo excessivo desse tipo de conteúdo e problemas como falta de concentração, ansiedade social e insegurança.

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A pesquisadora Wang Wei, da área de Psicologia Educacional da instituição, analisou o impacto do uso compulsivo em estudantes rurais chineses. Segundo ela, há uma ligação direta entre o tempo gasto com vídeos curtos e o nível de envolvimento com a escola.

“O consumo compulsivo de vídeos curtos tem um impacto negativo no desenvolvimento cognitivo, podendo causar falta de concentração, ansiedade social e insegurança”, afirmou em declarações à agência Lusa. “A nossa pesquisa indica uma correlação direta: quanto mais os estudantes consomem vídeos curtos, menos se envolvem com a escola.”

Para a pesquisadora, o formato desses conteúdos representa um risco especial para o público infantil. “Esta concepção de vídeos curtos pode ser particularmente perigosa para as crianças”, alertou.

Segundo Wang, embora as necessidades psicológicas fundamentais devam ser atendidas fora do ambiente digital, as plataformas acabam suprindo essas demandas por meio de algoritmos personalizados e ferramentas de interação social. Essa dinâmica, de acordo com o estudo, cria uma espécie de satisfação paralela.

“Esta satisfação paralela leva potencialmente a um uso excessivo e ao vício”, explicou. Ela acrescenta que “a natureza estimulante e de ritmo acelerado dos vídeos curtos torna-os altamente divertidos para os alunos”, o que amplia o tempo de exposição.

Superestimulação e fuga da realidade - As conclusões de Wang dialogam com outra pesquisa conduzida por Anise Wu Man Sze, professora de Psicologia na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Macau. No estudo sobre componentes afetivas e cognitivas no uso problemático de vídeos curtos, Wu destaca o impacto da superestimulação no desenvolvimento saudável das crianças.

De acordo com a professora, o acesso facilitado contribui para a popularidade desse formato. Os vídeos “estão logo ali à mão e são gratuitos”, observou em entrevista à Lusa. Isso permite que crianças e adolescentes tenham contato com grandes quantidades de conteúdo “a qualquer hora, em qualquer lugar”.

Wu explica que o comportamento de dependência muitas vezes começa com um objetivo prático ou recreativo. No entanto, pode evoluir para padrões compulsivos, especialmente quando o uso começa a interferir na rotina.

“Temos de aumentar a consciencialização, sobretudo se o uso começar a afetar a vida quotidiana, levando a sacrificar tempo em família, negligenciar o sono, ou navegar em momentos inadequados, como durante as aulas”, afirmou.

A pesquisadora também aponta fatores adicionais que podem contribuir para a dependência, como estresse diário, ambiente social e predisposição genética. Segundo ela, um dos principais motores do comportamento compulsivo é a tentativa de escapar de situações desconfortáveis.

“Na verdade, uma das razões primárias para a dependência, que resulta nestes comportamentos compulsivos, é a fuga de realidades desagradáveis, pressões ou situações em que as pessoas desejam evitar confrontos”, explicou.

Caminhos para intervenção - Para Wang Wei, medidas restritivas isoladas não são suficientes para enfrentar o problema. A pesquisadora defende que a intervenção junto às crianças deve priorizar o equilíbrio emocional e o desenvolvimento de habilidades de autorregulação.

“É muito importante” satisfazer as necessidades emocionais das crianças e, ao mesmo tempo, cultivar competências digitais e de autocontrole, “em vez de nos limitarmos retirar o aparelho celular”, afirmou.

Os dados de mercado mostram a dimensão do fenômeno. Até dezembro de 2024, cerca de 1,1 bilhão de pessoas na China tinham acesso a vídeos curtos, sendo que 98,4% eram utilizadores ativos do formato, segundo o Relatório Anual sobre o Desenvolvimento dos Serviços Audiovisuais na Internet, divulgado por autoridades chinesas.

O documento aponta ainda que a indústria audiovisual online superou 1,22 trilhão de yuan, o equivalente a 149 bilhões de euros, impulsionada principalmente pelo consumo de vídeos curtos e transmissões ao vivo. O relatório também destaca o crescimento das microsséries e o papel da inteligência artificial generativa na transformação do ecossistema de conteúdos.

O alcance massivo desse formato ajuda a explicar por que o debate sobre seus efeitos se torna cada vez mais urgente. Para as pesquisadoras, compreender os mecanismos de atração e dependência é o primeiro passo para estabelecer limites e orientar famílias e escolas sobre o uso equilibrado da tecnologia.

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