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30 de novembro de 2025 - 12h39
EDUCAÇÃO

Ensino da cultura afro-brasileira ainda enfrenta resistência nas escolas

Mesmo com avanços em formações e materiais didáticos, conflitos e desinformação ainda dificultam aplicação da lei de ensino

30 novembro 2025 - 11h50Agência Brasil
Atividades sobre cultura afro-brasileira fazem parte da rotina das escolas desde 2003, mas ainda enfrentam resistência.
Atividades sobre cultura afro-brasileira fazem parte da rotina das escolas desde 2003, mas ainda enfrentam resistência. - (Foto: Tonodiaz/Freepik)

Duas décadas após a lei federal que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, redes de ensino em todo o país ainda lidam com entraves que vão além da estrutura pedagógica. Episódios motivados por desinformação e intolerância continuam a expor as dificuldades de incorporar plenamente o conteúdo no cotidiano escolar.

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Um exemplo recente ocorreu em São Paulo, durante o mês da Consciência Negra. Em uma escola da rede pública, policiais armados foram chamados por um pai após a filha ter feito um desenho de um orixá em atividade de sala. O caso provocou indignação de pais, educadores e lideranças políticas, reacendendo o debate sobre a falta de compreensão que ainda persiste entre manifestações culturais e práticas religiosas.

A professora Núbia Esteves, que leciona há mais de 20 anos na zona oeste de São Paulo, tornou-se uma referência pela maneira como integra a cultura afro-brasileira às suas aulas. Para ela, muitos dos conflitos e mal-entendidos ainda observados nas escolas têm origem na incapacidade de diferenciar cultura de religiosidade, um reflexo direto de um longo processo histórico de estigmatização das tradições de matriz africana.

“Eu não trabalho religião. Trabalho os orixás como cultura, mitologia, arquétipos”, afirma. Em suas aulas, os estudantes comparam figuras africanas a personagens da mitologia grega, como Iansã e Atena, Oxum e Afrodite, ou Xangô e Zeus, e discutem o papel dessas narrativas na relação entre diferentes povos e a natureza.

Além de textos de autores como Pierre Verger e Reginaldo Prandi, Núbia utiliza quadrinhos, vídeos e obras de artistas como Carybé e Mestre Didi. Os alunos também produzem cordéis, desenhos e histórias inspiradas nessa mitologia. “Já tivemos quadrinho em que um orixá conversava com um deus grego. É assim que criamos pontes culturais”, comenta.

A professora admite que já precisou explicar a estudantes que o conteúdo não se tratava de ensino religioso. “Apresento como parte da história, da arte e da formação do Brasil. Do mesmo jeito que estudamos mitologia grega, lendas indígenas ou santos em festas populares, podemos trabalhar símbolos africanos”, pontua.

Para ela, compreender essas referências é essencial para combater o racismo estrutural — que historicamente demonizou tudo o que é de origem africana.

“O importante é conhecer. Quando conhecemos a cultura do outro, descolonizamos o olhar e desmontamos preconceitos”, resume a docente.

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