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05 de fevereiro de 2026 - 10h01
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QUEIMADAS

El Niño eleva risco de fogo no Pantanal e MS reforça combate com bases e tecnologia

Estado se antecipa ao aumento do risco de incêndios com bases avançadas, aeronaves e uso de tecnologia no Pantanal

5 fevereiro 2026 - 08h30Iury de Oliveira
Bases avançadas, uso de aeronaves e tecnologia fortalecem a resposta do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso do Sul aos incêndios florestais no Pantanal em cenário de maior risco com o El Niño.
Bases avançadas, uso de aeronaves e tecnologia fortalecem a resposta do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso do Sul aos incêndios florestais no Pantanal em cenário de maior risco com o El Niño. - (Foto: Álvaro Rezende/Secom)

Com a previsão de um inverno mais quente e de chuvas irregulares em 2026, Mato Grosso do Sul já trabalha com um cenário de maior risco de incêndios florestais em seus principais biomas, como Cerrado, Mata Atlântica e, principalmente, o Pantanal. A influência do fenômeno climático El Niño altera o regime de chuvas e o padrão de temperatura e ventos, criando condições que favorecem a propagação do fogo e exigem resposta rápida do poder público.

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Diante desse quadro, o Estado estruturou uma estratégia de enfrentamento que combina tecnologia, bases avançadas de combate, uso de aeronaves e ações planejadas de prevenção e resposta. O objetivo é reduzir danos ambientais, proteger comunidades e evitar que episódios extremos, como os grandes incêndios dos últimos anos, se repitam com a mesma intensidade.

El Niño e um cenário de alerta prolongado - Em Mato Grosso do Sul, o El Niño atua de forma direta, deixando as temperaturas mais altas e interferindo na distribuição das chuvas. Em 2026, a previsão é de que esse aquecimento se manifeste inclusive durante o inverno, período que tradicionalmente já é mais seco no Estado, o que agrava o risco de queimadas.

A meteorologista Valesca Fernandes, do Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso do Sul), explica que a situação atual já acende um sinal de alerta. Ela lembra que, até janeiro, o Estado registrou chuvas abaixo do esperado, o que contribui para deixar a vegetação mais seca e vulnerável ao fogo. Desde o início de fevereiro, alguns municípios superaram a média de chuva prevista para todo o mês, mas isso ainda não significa tranquilidade.

Os dados usados para essa análise são consolidados a partir do monitoramento de 48 municípios, com informações da Semadesc (Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) e Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais).

Segundo Valesca, o comportamento do El Niño em 2026 exige atenção ao longo de praticamente todo o ano. "Em relação ao El Niño, a época é de condições de neutralidade para o trimestre de fevereiro, março e abril. Porém, no segundo semestre, há um indício de retorno do fenômeno e que pode favorecer a ocorrência de temperaturas acima da média e as ondas de calor", explica a meteorologista.

Ela reforça que esse movimento tende a coincidir com o período mais seco em Mato Grosso do Sul. "Essa situação casa exatamente durante o período seco, que seria quando a gente tem a umidade muito baixa. As condições das altas temperaturas, ondas de calor, baixo valor de umidade relativa do ar, todo esse cenário pode intensificar o aumento para a ocorrência de incêndios florestais".

O aumento de eventos climáticos severos é uma das marcas do El Niño, que influenciou as temperaturas mais quentes já registradas entre 2023 e 2025. De acordo com o Cemtec, a tendência é de que o fenômeno se desenvolva entre o fim do outono e o início do inverno, com aquecimento das temperaturas já a partir de março.

De forma geral, o El Niño também deve impactar o próximo período úmido, com previsão de chuvas irregulares e insuficientes, abaixo da média histórica. Isso significa que, mesmo na estação chuvosa, o alívio pode ser menor do que o necessário para recuperar áreas afetadas pela seca.

Estrutura montada para resposta rápida - Diante desse cenário climático, o Governo de Mato Grosso do Sul vem se preparando com antecedência para a temporada de incêndios florestais. A estratégia envolve ações de prevenção e combate em todos os biomas do Estado, com foco especial no Pantanal.

O Corpo de Bombeiros Militar atua por terra e ar, utilizando aeronaves para o combate às chamas em locais de difícil acesso e para o transporte de equipes até regiões mais remotas. Esse tipo de operação é fundamental em áreas alagáveis e de grande extensão, como o Pantanal, onde o deslocamento exclusivamente por via terrestre pode atrasar a resposta ao fogo.

A atuação também incorpora o uso de tecnologia. Drones e análises de georreferenciamento são aliados importantes para mapear áreas atingidas, identificar novos focos e planejar rotas de acesso com maior segurança. Essas ferramentas permitem uma visão mais ampla do comportamento do fogo e ajudam as equipes a direcionarem esforços para pontos críticos, aumentando a efetividade do controle e da extinção das chamas.

Operação Pantanal 2025 e redução histórica de áreas queimadas - Mesmo com o risco elevado, os resultados recentes mostram que planejamento e integração fazem diferença. Na Operação Pantanal 2025, foi registrada redução expressiva tanto no número de focos de calor quanto na área queimada no território sul-mato-grossense.

Em 2025, a área atingida pelo fogo no Pantanal de Mato Grosso do Sul foi de pouco mais de 202,6 mil hectares, volume muito inferior ao registrado em 2024, quando mais de 2,3 milhões de hectares foram consumidos pelas chamas. Em ambos os anos, a atuação do Governo do Estado foi apontada como essencial para o controle e a extinção dos incêndios, com forte aposta em ações preventivas.

Essa redução histórica é resultado de um conjunto de fatores. Entre eles estão o aumento da conscientização da população, o fortalecimento da atuação interinstitucional, a resposta mais rápida aos focos de incêndio e a qualificação técnica das equipes. Em 2025, quase 1 mil brigadistas foram formados, reforçando o quadro de pessoal disponível para atuar diretamente na linha de fogo.

As condições climáticas também tiveram participação, com um cenário ligeiramente mais favorável do que em anos anteriores, embora o déficit hídrico tenha permanecido. Ou seja, mesmo com menos chuva do que o ideal, a combinação de prevenção, treinamento e estrutura contribuiu para diminuir o impacto dos incêndios.

Bases avançadas encurtam o tempo de resposta - Um dos pontos que ajudaram a mudar o padrão de atendimento às ocorrências foi a instalação de bases avançadas do Corpo de Bombeiros no Pantanal a partir de 2024. Essas estruturas aproximam as equipes das áreas mais vulneráveis, encurtando o tempo de deslocamento e permitindo uma resposta mais rápida aos focos de fogo.

A base avançada dos Bombeiros na região do Amolar, por exemplo, é citada como peça importante no sucesso das operações recentes, ao facilitar a logística de pessoal, equipamentos e suprimentos. Com equipes já posicionadas no território, aumentam as chances de o fogo ser combatido ainda em estágio inicial, antes de se transformar em um grande incêndio.

Na fase operacional da última temporada, os Bombeiros monitoraram 924 eventos de fogo detectados por satélite e combateram diretamente 88 deles, o que resultou em 1.105 ações de combate. No total, 1.298 militares foram mobilizados, com apoio de 60 viaturas para atender 4.391 ocorrências registradas, a maioria em áreas urbanas ou periurbanas.

O subdiretor de Proteção Ambiental do Corpo de Bombeiros, major Eduardo Teixeira, destaca que o padrão de atuação foi mantido ao longo de todo o ano, e não apenas nos meses tradicionalmente mais críticos.

"É importante ressaltar que, ao longo de todo o ano, o Corpo de Bombeiros manteve um padrão consistente de qualidade no trabalho. Com as equipes em campo, nos ciclos da operação, em diversos casos conseguimos combater os focos de incêndio antes mesmo de serem registrados pelos sistemas de monitoramento via satélite", explicou o major.

Essa antecipação reforça o papel das bases avançadas e do monitoramento constante em campo como diferenciais na estratégia de combate, especialmente em um contexto de mudança climática e eventos mais extremos.

Planejamento contínuo para enfrentar novos ciclos de fogo - Com a perspectiva de que o El Niño volte a se fortalecer no segundo semestre de 2026, ao mesmo tempo em que se aproxima o período mais seco do ano, a palavra de ordem é planejamento.

A experiência acumulada em operações recentes, especialmente no Pantanal, mostra que ações estruturadas podem reduzir significativamente a área queimada, mesmo em anos de maior risco. O uso combinado de bases avançadas, aeronaves, drones, análise de dados e capacitação de brigadistas cria uma rede de proteção que tende a se tornar ainda mais necessária diante do cenário climático projetado.

Ao mesmo tempo, a manutenção de campanhas educativas e a conscientização de produtores rurais, comunidades pantaneiras e população urbana seguem como peças importantes para evitar queimadas ilegais e o uso inadequado do fogo em períodos de seca severa.

Em um Estado com forte presença de biomas como o Pantanal e o Cerrado, a preparação para a temporada de incêndios florestais deixou de ser apenas uma ação pontual e passou a fazer parte de uma política permanente. A combinação de ciência, tecnologia e presença em campo é hoje a principal aposta de Mato Grosso do Sul para enfrentar um novo ciclo de risco elevado, com El Niño e seca prolongada no horizonte.

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