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NOVA ERA

Com o fim dos testes em animais, ciência e ética impulsionam mercado dos cosméticos

Com avanços científicos e uma nova legislação, a indústria cosmética se adapta às alternativas cruelty-free, com destaque para marcas como a Natura

30 agosto 2025 - 11h15Carlos Guilherme
A proibição de testes em animais no Brasil não surge apenas de um movimento ético, mas de uma revolução científica que possibilitou alternativas mais precisas e seguras para garantir a qualidade dos produtos
A proibição de testes em animais no Brasil não surge apenas de um movimento ético, mas de uma revolução científica que possibilitou alternativas mais precisas e seguras para garantir a qualidade dos produtos - (Foto: Divulgação)

A proibição de testes em animais para cosméticos no Brasil, sancionada em julho deste ano, representa um avanço significativo não só do ponto de vista ético, mas também científico.

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O movimento "cruelty-free", que vem ganhando força no setor, já é uma realidade em diversas empresas, sendo a Natura uma das pioneiras no País. No entanto, a mudança não aconteceu da noite para o dia. Ao longo de décadas, a indústria foi gradualmente substituindo os testes em animais por alternativas científicas, como modelos computacionais e tecidos reconstruídos em laboratório, métodos cada vez mais eficazes e reconhecidos internacionalmente.

Coelhos, porquinhos-da-índia e camundongos eram os animais mais usados em testes para detectar se os produtos químicos provocavam reações, como alergias ou irritações na pele e nos olhos. Como já noticiado pelo portal A Crítica, foram 12 anos de tramitação da lei no Congresso, até ser sancionada no fim de julho pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), depois de muita pressão de grupos de defesa dos animais.

A proibição de testes em animais no País não surge apenas de um movimento ético, mas de uma revolução científica que possibilitou alternativas mais precisas e seguras para garantir a qualidade dos produtos. A Natura, por exemplo, não realiza testes em animais há mais de 25 anos e é uma das líderes no desenvolvimento de novas metodologias para substituir os testes convencionais. Segundo a gerente científica de segurança de produtos da Natura, Nathalia Indolfo, a empresa investe em mais de 60 métodos alternativos, muitos deles reconhecidos internacionalmente, que incluem inovações como os modelos computacionais in silico e os testes in vitro com pele e tecidos reconstruídos.

A gerente científica de segurança em produtos da Natura, Nathalia Indolfo - (Foto: Divulgação)

Indolfo destaca a importância desses avanços: "Entre essas dezenas de metodologias alternativas, estão modelos computacionais in silico e testes in vitro com pele e tecidos, tudo reconstruído em laboratório. A Natura foi pioneira ao eliminar essa prática em toda a sua cadeia, em 2006, e desenvolveu métodos extremamente avançados, como a pele 3D e o sistema microfisiológico humano - human-on-a-chip - capazes de mimetizar a fisiologia humana para avaliar efeitos sistêmicos."

Esses métodos são cada vez mais eficazes. A pele 3D, por exemplo, reproduz a estrutura da pele humana e permite realizar testes de segurança de forma precisa, sem que haja a necessidade de envolver animais. Além disso, o sistema human-on-a-chip utiliza tecidos desenvolvidos a partir de células humanas, como os de fígado e intestino, para simular o comportamento do corpo humano, permitindo avaliações de toxicidade e carcinogenicidade, aspectos críticos para garantir a segurança de cosméticos. Essas inovações já são utilizadas por empresas líderes no mercado, como a Natura, para validar seus produtos.

Papel das marcas - A Natura tem sido um exemplo nesse processo de transição para práticas livres de testes em animais. A decisão de eliminar os testes em produtos acabados foi tomada em 1998, e, em 2006, a empresa estendeu essa prática para toda a cadeia de fornecimento, incluindo matérias-primas e fornecedores. Segundo Nathalia Indolfo, a mudança não se deu apenas por um compromisso ético, mas também pela busca contínua por alternativas científicas e tecnológicas mais eficientes.

"Eticamente, a mudança realizada lá atrás, reflete a filosofia do 'Bem Estar Bem', da Natura, que conecta o bem-estar das pessoas e do planeta. A empresa é membro fundador da União para o BioComércio Ético e adota uma postura ativa em fóruns regulatórios e campanhas que defendem a proibição definitiva de testes em animais", afirma a gerente científica.

A postura da Natura gerou um efeito multiplicador, influenciando outras marcas e incentivando a adoção de alternativas ao uso de animais em testes de segurança. Além disso, a transparência da empresa nas suas ações de sustentabilidade e seu investimento em inovação tecnológica também serviram de inspiração para outras corporações do setor.

A Natura, por exemplo, investe em um dos maiores centros de inovação da América Latina, localizado em Cajamar (SP), onde busca desenvolver novas soluções para a beleza responsável. De acordo com Indolfo, a empresa já está trabalhando com tecnologias como a bioimpressão de tecidos e sistemas microfisiológicos para avançar ainda mais no campo da pesquisa e desenvolvimento de cosméticos seguros.

A lei foi sancionada pelo presidente Lula no final do mês passado - (Foto: Freepik)

"No futuro, inovações científicas continuarão colaborando para garantir a sustentabilidade por meio de tecnologias de ponta, incluindo biotecnologia e biomimética, porque entendemos que isso vai nos ajudar a alcançar uma operação regenerativa. Nosso objetivo é nos tornar 100% regenerativos até 2050", comenta Nathalia, destacando a meta ambiciosa da empresa de transformar suas práticas em um modelo regenerativo, que contribua não apenas para a eliminação dos testes em animais, mas também para a saúde do planeta.

Essas inovações têm se mostrado essenciais não só para a criação de novos produtos mais seguros, mas também para ajudar a indústria cosmética a se alinhar com as crescentes exigências de sustentabilidade e responsabilidade ambiental, pilares fundamentais para o futuro do setor.

De acordo com Indolfo, a Natura acredita que o consumidor é um dos principais motores dessa mudança: "O papel do consumidor nesse processo é protagonista, por meio do consumo consciente, avaliando produtos não apenas de forma individual, mas considerando também matérias-primas, cadeias de valor e impacto ambiental", finaliza.

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