
Sob atenção da comunidade internacional, o governo brasileiro recebeu nesta quinta-feira (5), em Brasília, uma ampla delegação da Rússia enviada pelo presidente Vladimir Putin. No primeiro compromisso oficial, o vice-presidente Geraldo Alckmin defendeu a manutenção e o aprofundamento da parceria estratégica entre os dois países, sem mencionar diretamente a guerra na Ucrânia, que se aproxima de quatro anos desde o início da invasão russa.
A visita marca a retomada da Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação (CAN), principal mecanismo de coordenação governamental entre os dois países, que não se reunia há mais de uma década. O encontro ocorre em um contexto geopolítico sensível, acompanhado de perto por democracias ocidentais e coincidente com negociações indiretas entre Rússia e Ucrânia, mediadas pelos Estados Unidos, nos Emirados Árabes Unidos.
Durante discurso no Ministério das Relações Exteriores, diante do primeiro-ministro russo Mikhail Mishustin, chefe da delegação, Alckmin afirmou que a realização da 8ª reunião da CAN demonstra a solidez do relacionamento bilateral. Segundo ele, a cooperação entre Brasil e Rússia vai além de circunstâncias momentâneas.
“Parcerias sólidas não dependem apenas da conjuntura, mas de interesses estruturais bem compreendidos”, afirmou o vice-presidente.
Alckmin não citou o conflito na Ucrânia, iniciado em fevereiro de 2022, em meio a um cenário internacional marcado por novos ataques de ambos os lados após o fim de uma trégua de inverno. Nos últimos dias, autoridades ucranianas relataram bombardeios que atingiram uma maternidade e um trem civil. Paralelamente, expira nesta quinta-feira um acordo de limitação do arsenal nuclear entre Rússia e Estados Unidos, o que eleva o risco de uma nova corrida armamentista.
Do lado russo, Mishustin também evitou referências diretas à guerra, mas destacou a expectativa de Moscou em contar com o Brasil como parceiro na defesa da estabilidade internacional. Segundo ele, os dois países compartilham a visão de uma ordem global multipolar.
“Nós, em conjunto, criamos a nova ordem mundial baseada nos princípios de respeito, soberania e no direito de cada país de escolher seu destino. A cooperação entre a Rússia e o Brasil vai contribuir para manter a estabilidade global”, declarou o premiê, ao citar a atuação conjunta em fóruns como o Brics e a Organização das Nações Unidas.
Apesar do ambiente internacional tensionado, a reunião em Brasília teve como foco principal a cooperação econômica, científica e tecnológica. Participaram ministros e representantes de áreas estratégicas dos dois governos. Pelo lado brasileiro, estiveram presentes autoridades do Itamaraty, Saúde, Ciência, Tecnologia e Inovação, Agricultura, Cultura, Desenvolvimento Agrário, Portos e Aeroportos, além da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, da Agência Espacial Brasileira e do Gabinete de Segurança Institucional.
A delegação russa contou com ministros das pastas de Indústria e Comércio, Agricultura, Cultura, Saúde, Transporte, Desenvolvimento Econômico e Ciência e Ensino Superior. A visita mobilizou cerca de 50 jornalistas enviados de Moscou e oito ministros russos, evidenciando o interesse do Kremlin na retomada do diálogo.
A CAN estava prevista para ocorrer em 2022, mas foi adiada em razão da guerra e dos impactos diplomáticos do conflito. Integrantes do governo brasileiro relataram, à época, receio de desgaste político com a aproximação institucional com Putin.
Na abertura da reunião, Alckmin defendeu o fortalecimento dos canais institucionais, a redução de entraves logísticos e a diversificação do comércio bilateral. O vice-presidente avaliou que o intercâmbio entre os países ainda está abaixo do potencial das duas economias.
Segundo dados do governo brasileiro, o comércio bilateral somou US$ 10,9 bilhões em 2025. As exportações brasileiras para a Rússia alcançaram US$ 1,5 bilhão, enquanto as importações chegaram a US$ 9,4 bilhões, o que resulta em déficit para o Brasil. Em 2024, o fluxo comercial foi de US$ 12,4 bilhões, após atingir US$ 11,3 bilhões em 2023, quando superou pela primeira vez a marca de US$ 10 bilhões.
O Brasil importa principalmente óleo diesel e fertilizantes, enquanto exporta carne bovina, soja e café. Mishustin destacou o papel brasileiro na segurança alimentar russa e defendeu a ampliação do comércio e da cooperação tecnológica.
O premiê afirmou que a Rússia está disposta a compartilhar tecnologias em áreas como energia nuclear para fins pacíficos, inteligência artificial, automação e medicamentos. Também defendeu o aumento de transações em moedas locais, maior interação bancária e o uso de uma arquitetura financeira independente, além da criação de corredores logísticos, em linha com a estratégia russa de reduzir a dependência do dólar em meio às sanções internacionais.
Ainda nesta quinta-feira, Mishustin tem encontros reservados com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Itamaraty, e participa de um almoço com autoridades brasileiras e empresários dos dois países.

