
Em meio à abertura de um inquérito sobre a gestão do presidente Júlio Casares, o São Paulo passou a ter de prestar contas também à Polícia Civil. O clube foi oficialmente solicitado a explicar 35 saques em dinheiro que, somados, chegam a R$ 11 milhões, realizados entre janeiro de 2021 e novembro de 2025 em contas da própria instituição, segundo informações divulgadas pelo GE. A movimentação é analisada no contexto político em que o Conselho Deliberativo marcou para 16 de janeiro a votação do pedido de impeachment do dirigente.
O pedido de esclarecimentos foi encaminhado ao escritório Tokoi Advogados, responsável pela representação jurídica do São Paulo. Caberá aos advogados reunir documentos, detalhar a origem e a finalidade dos recursos e entregar uma prestação de contas formal à polícia, que conduz a investigação sobre as movimentações financeiras durante a atual gestão do clube.
De acordo com o inquérito, os 35 saques foram feitos ao longo de cinco anos, todos já sob comando de Júlio Casares. A maior parte das operações ocorreu no Banco Bradesco, que concentrou 33 retiradas em espécie. Outras duas foram registradas no Banco Rendimento. As duas instituições bancárias classificaram as movimentações como atípicas, o que levou o caso a ser apontado em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Saques cresceram a partir de 2024 - O fluxo apresentado na investigação detalha ano a ano o volume retirado das contas do São Paulo. Em 2021, primeiro ano do recorte, foram sete saques, que somaram R$ 1,5 milhão. No ano seguinte, 2022, o número de operações caiu para seis, com total de R$ 1,2 milhão. Em 2023, novamente seis saques foram identificados, alcançando R$ 1,4 milhão.
A partir de 2024, porém, os valores aumentam de forma mais significativa. Nesse ano, o relatório aponta 11 saques em dinheiro, que juntos chegam a R$ 5,2 milhões, o maior montante de todo o período analisado. Já em 2025, foram cinco saques, totalizando R$ 1,7 milhão. Todos os números foram reunidos e encaminhados às autoridades como parte da apuração sobre a gestão financeira do clube.
As retiradas aconteceram integralmente dentro do mandato de Júlio Casares, que está em seu último ano à frente da presidência. O fato de as operações terem sido classificadas como atípicas pelos bancos e pelo Coaf não significa, por si só, irregularidade comprovada, mas obriga o clube a explicar o destino do dinheiro e a forma como essas transações foram registradas internamente.
Inquérito, impeachment e defesa do presidente - Os saques integram um inquérito que investiga a gestão Casares e servem de pano de fundo para o clima de tensão política no Morumbi. O Conselho Deliberativo do São Paulo já definiu para 16 de janeiro a data em que os conselheiros irão apreciar o pedido de impeachment do presidente. O resultado dessa votação pode definir o futuro da atual administração.
Apesar de a movimentação financeira estar sob escrutínio, o texto da investigação deixa claro que, até o momento, não há evidências de que Júlio Casares tenha sido beneficiário direto dos saques apontados. Ou seja, não foi identificada prova de que os valores retirados das contas do clube tenham ido para o patrimônio pessoal do dirigente.
A defesa do presidente, conduzida pelos advogados Daniel Bialski e Bruno Borragine, afirma que as finanças pessoais de Casares têm origem comprovada. Em nota, os defensores sustentam que "todas as movimentações financeiras de Júlio, contidas nos relatórios do Coaf, possuem origem lícita e legítima, com lastro compatível com a evolução de sua capacidade financeira."
O foco dos esclarecimentos agora se divide entre o que diz respeito ao clube e o que está ligado à pessoa física do dirigente. No caso do São Paulo, a Polícia Civil busca entender por que houve tantas retiradas em espécie, qual foi a destinação dos valores e se os procedimentos internos obedeceram às normas de governança e transparência esperadas de uma instituição desse porte.
Nos bastidores, o pedido de explicações à diretoria tricolor se soma à pressão política já existente pela proximidade da votação de impeachment. A prestação de contas que será apresentada pela Tokoi Advogados deve servir tanto para responder às autoridades policiais quanto para alimentar o debate interno entre conselheiros e demais órgãos do clube sobre a condução administrativa da atual gestão.
Enquanto o inquérito avança, o São Paulo precisa equilibrar o calendário esportivo com a necessidade de dar respostas rápidas e consistentes sobre o uso dos recursos retirados em dinheiro. A forma como o clube esclarecerá os 35 saques e a conclusão da Polícia Civil sobre o caso podem ter impacto direto na avaliação que o Conselho Deliberativo fará da administração de Júlio Casares nas próximas semanas.

