
Correr, caminhar ou pedalar em espaços públicos deixou de ser uma escolha simples para muitas mulheres em Campo Grande. Casos recentes de violência e importunação sexual têm ampliado a sensação de insegurança e provocado mudanças profundas na rotina de quem utiliza parques, ruas e avenidas para a prática de atividades físicas. O medo passou a interferir diretamente nos horários, nos trajetos e, em muitos casos, na própria decisão de sair de casa.
O episódio mais recente, envolvendo um motoentregador que apalpou uma mulher enquanto ela retornava da academia, reforçou um alerta que já vinha sendo sentido por frequentadoras de diferentes regiões da cidade. Longe de serem situações isoladas, os relatos indicam um cenário contínuo de vulnerabilidade, especialmente para mulheres que se exercitam sozinhas ou em locais com pouca estrutura e vigilância.
Como consequência, espaços antes ocupados com naturalidade passaram a ser evitados, sobretudo em horários de menor movimento. Em muitos casos, a prática esportiva só acontece quando há companhia ou em locais considerados mais seguros.
Para se sentir mais segura, Rosângela passou a correr com itens de defesa pessoal. (Foto: Arquivo Pessoal)Medo que inviabiliza a prática esportiva - Moradora da região do Rita Vieira, a servidora pública Rosângela Soares Carneiro, de 44 anos, afirma que a insegurança tem impactado diretamente a prática de atividades físicas, que para muitas pessoas vai além do lazer. ''Essa situação é muito complicada, porque muitas pessoas buscam cuidar da saúde e do corpo e, em alguns casos, a atividade física é até prescrita por médico para tratar questões psíquicas. No entanto, esses episódios acabam, muitas vezes, inviabilizando a prática''.
Segundo ela, a sensação de insegurança alterou completamente sua rotina. ''Antes, eu corria apenas com uma garrafa de água. Hoje, preciso sair com spray de pimenta e até canivete'', diz. A servidora alerta que esse tipo de adaptação também traz riscos. ''Além de preocupante, pode gerar outros problemas, porque, em uma reação inesperada, a violência pode acabar aumentando, no caso das mulheres, principalmente se não souberem se defender, o risco de um trauma ainda maior é real'', pontua.
Além do medo de agressões físicas, Rosângela destaca que a importunação sexual faz parte da rotina de mulheres que praticam esportes em espaços públicos. ''A importunação sexual é algo recorrente. Muitas vezes acontece em avenidas movimentadas, em locais com trabalhadores da construção civil ou da própria prefeitura, além de motoristas que fazem comentários ou gestos inadequados'', relata.
Embora não tenha sido vítima direta de violência física, ela afirma que o impacto emocional é profundo. ''Mesmo assim, o medo é como se tivesse acontecido comigo, porque são muitos casos em um curto período de tempo''. Para ela, a divulgação desses episódios tem um efeito duplo. ''Gera insegurança, mas também funciona como forma de proteção, se não houvesse divulgação, poderia parecer que está tudo normal''.
Erika relata que a falta de iluminação foi fator principal para mudança de horarios na pratica de atividade fisica. (Foto: Arquivo Pessoal)A vendedora de petshop Erika Carvalho também precisou mudar hábitos após os episódios recentes de violência. Ela conta que deixou de correr em determinados horários e passou a evitar locais isolados. ''Sim, mudei minha rotina, deixei de correr mais cedo por cautela e evito lugares isolados'', afirma.
Correr sozinha, algo que antes fazia parte do dia a dia, deixou de ser uma opção. ''Já deixei de correr, caminhar ou pedalar sozinha por medo'', relata. Segundo Erika, a principal causa da insegurança é a falta de iluminação, especialmente em regiões mais afastadas. ''A falta de iluminação com certeza dá muita insegurança, em regiões periféricas, como onde corro na Avenida Guaicurus, à noite é impossível correr. O melhor horário é pela manhã, por conta da movimentação de pessoas e do fluxo do trânsito'', explica.
Ela afirma que, mesmo sendo uma avenida adequada para a prática esportiva, deixou de frequentar o local no período noturno. Questionada sobre a existência de espaços realmente pensados para a segurança das mulheres, Erika é direta. ''Sinceramente, acho que não. Alguns parques ainda transmitem maior sensação de segurança, desde que frequentados durante o dia. 'Talvez o Parque dos Poderes, mesmo com esses casos recentes, seja o local mais seguro, o Parque Ayrton Senna também, lá eu corro sempre e é onde mais me sinto segura, claro, em horários de dia''.
Mesmo nesses locais, situações desconfortáveis continuam acontecendo. Erika relata um episódio recente no Parque Ayrton Senna. ''Uma pessoa pegou minha garrafa de água, tomou água dela e ficou cercando a garrafinha, olhando o pessoal correr. Não achei legal a atitude dele", conta.
Aline viu na tecnologia uma aliada na segurança, na pratica da corrida de rua, compartilha sua localização em tempo real com o esposo e contatos de confiança (Foto: Arquivo Pessoal)
A corretora de imóveis Aline Queiroz, de 43 anos, integrante da assessoria Anib Runners, também precisou adaptar sua rotina. Durante a semana, ela costuma treinar sozinha, mas passou a adotar estratégias para reduzir riscos. ''Alterei os horários de treino, passei a ir um pouco mais tarde e evito sair muito cedo. Tenho procurado treinar em horários com maior fluxo de pessoas ou me juntar com amigas da assessoria para corrermos juntas'', explica.
Aline conta que costumava frequentar a Orla Morena e a Orla do Aeroporto, mas após os últimos casos de violência passou a priorizar espaços considerados mais seguros. ''Tenho frequentado mais o Parque das Nações Indígenas e o Poliesportivo Vila Nasser, me sinto mais segura porque, além de serem locais fechados, existem seguranças no local''.
Além da mudança de locais e horários, ela passou a usar a tecnologia como aliada. ''Comecei a usar um aplicativo de monitoramento e segurança, no qual compartilho minha localização com meu esposo e contatos de emergência'', relata.
Estrutura, manutenção e desafios nos parques - Em meio às reclamações sobre segurança, a Fundação Municipal de Esportes (Funesp) informou que administra atualmente 34 praças e parques em Campo Grande, incluindo o Belmar Fidalgo, Elias Gadia, Parque do Sóter, Ayrton Senna e Jacques da Luz.
Segundo a fundação, a manutenção cotidiana desses espaços é realizada diariamente por gestores responsáveis por cada parque, que cuidam da limpeza e dos serviços de rotina. Quando surgem demandas que não podem ser solucionadas pelas equipes locais, a Funesp aciona a sede para envio de equipes próprias.
Já serviços de maior porte, como obras estruturais e reformas mais complexas, não são executados diretamente pela fundação. Nesses casos, a Funesp encaminha ofícios à Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), que atende conforme seu cronograma.
Obras de manutenção estão programadas para março de 2026. (Foto: Alisson Lacerda)Sobre problemas estruturais no Parque do Sóter, como calçadas danificadas, a Funesp informou que, após assumir a gestão em março do ano passado, realizou um levantamento geral das praças e parques sob sua responsabilidade.
A recuperação da calçada do Sóter está prevista no cronograma da Sisep a partir de março de 2026, assim como intervenções nos parques Jacques da Luz e Ayrton Senna.
Guarita do Parque Sóter, entrada pela rua Rio Negro (Foto: Alisson Lacerda)Em relação às guaritas, a fundação explicou que algumas estruturas estão desativadas há anos e não contam com guarda fixo.
De acordo com a Funesp, a Guarda Civil Metropolitana não possui efetivo suficiente para manter agentes permanentemente nesses pontos, realizando apenas rondas periódicas mediante solicitação.
Segundo o Secretário Municipal Especial de Segurança e Defesa Social (Sesdes) de Campo Grande, Anderson Gonzaga da Silva Assis, a ampliação da presença nos parques e áreas verdes será uma das prioridades em 2026. Segundo o secretário responsável pela corporação, o Parque do Sóter está entre os principais focos da atuação, por ser uma das maiores áreas de lazer da Capital e concentrar grande fluxo de pessoas, especialmente no fim da tarde e à noite, com mulheres, crianças e famílias. ''Um dos focos em 2026 é a Guarda Civil Metropolitana estar mais presente e reforçar a segurança nos parques de Campo Grande. O Parque do Sóter é uma das principais áreas, por ser um dos maiores, e há uma presença maior de público naquela região, especialmente no entardecer e à noite'', afirmou.
De acordo com a GCM, está em andamento um mapeamento das áreas de maior circulação, com atenção especial ao Parque do Sóter. Como medida imediata, está sendo destinado mais um agente de segurança pública para o local, além da intenção de ampliar o uso de base móvel, levando a estrutura para dentro ou para áreas próximas aos parques, com o objetivo de aumentar a presença da Guarda junto à população.
O secretário explicou que atualmente há policiamento interno com motocicleta quando necessário, além de viaturas que realizam rondas periódicas. Sobre as guaritas que serão desativadas, ele destacou que a gestão dos parques é de responsabilidade da Funesp, enquanto a Guarda atua na área de segurança. Mesmo assim, afirmou que será realizado um estudo para reforçar o efetivo no Parque do Sóter ainda neste ano.
A GCM informou ainda que continuará avaliando as demandas e redistribuindo o efetivo conforme as prioridades, incluindo outros parques e áreas verdes da cidade, com atenção especial para regiões que registraram ocorrências recentes, como a área do Rita Vieira.
Por fim, a Funesp destacou que um dos principais desafios enfrentados na conservação dos espaços públicos é o vandalismo. Equipamentos são frequentemente danificados ou furtados, o que compromete a durabilidade das melhorias realizadas. A fundação informou que há projetos de revitalização aprovados para parques como o Ayrton Senna e o Jacques da Luz, mas que a preservação após as obras depende também da conscientização da população quanto ao cuidado com o patrimônio público.

