
Quando Max Verstappen acelerou pela primeira vez no Circuito de Barcelona, em fevereiro de 2022, durante os testes de pré-temporada, algo já indicava que a Fórmula 1 havia mudado. O chiado provocado pelo ar nas novas superfícies dos carros denunciava o início da era do efeito solo, criada para transformar o espetáculo e facilitar as disputas roda a roda.
Quatro temporadas depois, às vésperas da estreia do novo regulamento técnico de 2026, a F1 se despede dessa geração com um balanço misto. Houve avanços claros no equilíbrio entre as equipes, mas os principais objetivos esportivos ficaram aquém do esperado.
O pacote de regras lançado em 2022 tinha uma meta central: reduzir o chamado “ar sujo”, que dificulta a aproximação entre carros, e aumentar o número de ultrapassagens. A FIA apostou em novos conceitos aerodinâmicos, com maior dependência do assoalho e superfícies de carroceria mais amplas.
Os primeiros dados mostraram melhora. Em 2022, os carros conseguiam seguir mais de perto uns dos outros. Porém, com o passar do tempo, o desenvolvimento aerodinâmico das equipes voltou a intensificar a turbulência. Entre 2023 e 2025, a perda de carga aerodinâmica para quem vinha atrás voltou a crescer, limitando novamente as disputas em pista.
Além disso, surgiram efeitos colaterais. Em corridas com chuva, a visibilidade piorou devido ao spray gerado pelas asas maiores. Outro problema recorrente foi o porpoising, o quique causado pela variação rápida da pressão aerodinâmica quando os carros rodavam muito próximos ao solo, afetando conforto e desempenho.
Mais equilíbrio, menos margem para erro - Se as ultrapassagens decepcionaram, o equilíbrio entre as equipes foi um dos pontos altos. Dados da FIA mostram que a diferença de desempenho no Q1 caiu de 2,5% em 2021 para 1,1% em 2025. Isso tornou o grid mais competitivo e imprevisível.
Com margens tão apertadas, erros passaram a custar caro. Equipes do meio do pelotão passaram a disputar posições mais altas, enquanto pilotos experientes sofreram eliminações inesperadas. Lewis Hamilton, por exemplo, encerrou 2025 com três quedas seguidas no Q1, mesmo andando próximo ao ritmo do companheiro Charles Leclerc.
Nesse cenário, eficiência operacional e estratégia ganharam peso. Entre 2022 e 2025, a Red Bull venceu 54 das 92 corridas, com a McLaren conquistando 19 vitórias. O restante foi dividido entre Ferrari, Mercedes e outras equipes, alimentando narrativas que mantiveram o interesse do público.
Rejeição dentro do cockpit - Apesar do equilíbrio, os pilotos nunca esconderam o desconforto. Fernando Alonso afirmou, em 2025, que não sentiria falta dos carros de efeito solo, criticando o peso, o tamanho e a forma de pilotagem exigida. Verstappen também relatou dores constantes nas costas e nos pés ao longo das temporadas.
Os carros eram impressionantes em curvas rápidas, onde o efeito solo funciona melhor, mas pouco responsivos em curvas lentas. A condução exigia confiança extrema, favorecendo apenas os pilotos mais completos.
Ponte para 2026 - Paralelamente às mudanças técnicas, a F1 avançou no controle financeiro. O teto de gastos e as restrições de testes aerodinâmicos ajudaram a reduzir desigualdades e tornaram as equipes mais sustentáveis, cenário que seguirá no próximo ciclo.
O regulamento de 2026 nasce com outro foco. A reformulação dos motores busca atrair novos fabricantes, como Audi e Cadillac, e exige carros com menos arrasto e melhor gestão de energia. Conceitos como Modo Curva e Modo Reta devem mudar a dinâmica das corridas.
A era do efeito solo deixa lições claras. Trouxe equilíbrio e estabilidade financeira, mas não entregou plenamente o espetáculo prometido. Agora, a Fórmula 1 aposta que os carros de 2026 consigam corrigir essas limitações e inaugurar um novo capítulo mais eficiente dentro e fora da pista.

