
A música europeia perdeu, neste domingo (15), um de seus nomes mais inventivos e versáteis. O multi-instrumentista francês Michel Portal, considerado um dos grandes artistas do jazz e da música contemporânea do continente, morreu aos 90 anos. A morte foi confirmada por agências públicas de notícia francesas, como a rádio France Musique, que lamentou a perda com “imensa tristeza”. A empresária Marion Piras, responsável por sua agenda, não divulgou detalhes sobre a causa.
Nascido em 1935, em Bayonne, no sudoeste da França, Michel Portal (1935-2026) construiu uma trajetória marcada pela circulação constante entre universos musicais distintos. Compositor e multi-instrumentista, dominava clarinete, saxofone e bandoneon, e se notabilizou por transitar com naturalidade entre o jazz, o repertório clássico e a experimentação sonora. Instituições culturais francesas apontam que o músico deve receber homenagens póstumas.
Sua formação foi essencialmente clássica. Portal estudou clarinete no Conservatório de Paris, um dos centros de referência da música erudita europeia, onde obteve o primeiro prêmio em 1959. Em seguida, aperfeiçoou-se em direção musical com o maestro Pierre Dervaux. A carreira acadêmica e técnica foi consolidada com distinções em concursos internacionais, entre eles o de Genebra, em 1963, o que reforçou sua ligação com a tradição erudita europeia.
A Opéra Nacional de Bordeaux descreve Michel Portal como um artista “singular” e “inclassificável”, capaz de ocupar diferentes papéis no palco: solista clássico, intérprete de música contemporânea e improvisador no jazz. Seu repertório incluía compositores como Wolfgang Amadeus Mozart e Johannes Brahms, ao lado de parcerias e performances com nomes centrais da criação moderna, como Pierre Boulez, Karlheinz Stockhausen e Luciano Berio.
Além da atuação como intérprete, Portal foi figura importante na criação e pesquisa sonora. Ele foi cofundador do grupo de improvisação New Phonic Art, dedicado à experimentação coletiva, explorando timbres, formas e novas relações entre músicos. Mais tarde, criou o Michel Portal Unit, uma estrutura aberta voltada à improvisação e ao intercâmbio entre artistas europeus e norte-americanos, o que ajudou a aproximar diferentes cenas do jazz e da música contemporânea.
A sua carreira combinou concertos em salas clássicas, participação em festivais de música contemporânea e projetos de jazz, além de composições para cinema e televisão. Ao longo dos anos, recebeu o Grand Prix National de la Musique e acumulou reconhecimentos institucionais por sua contribuição à aproximação entre a tradição erudita e a improvisação moderna, em especial no contexto do free jazz europeu.
Instituições como a Philharmonie de Paris destacam que Portal atuou simultaneamente em três frentes: jazz, música clássica e música contemporânea. Essa presença múltipla, somada às colaborações com compositores modernos e à participação em grupos de improvisação, consolidou seu papel histórico na renovação da linguagem instrumental na Europa da segunda metade do século 20 em diante.
Ao longo de mais de seis décadas de atividade, Michel Portal manteve presença recorrente em conservatórios, festivais e casas de ópera europeias, tanto como solista quanto em projetos coletivos. A combinação de rigor técnico, curiosidade estética e abertura à improvisação ajudou a construir a imagem de um artista que recusava rótulos rígidos e preferia o trânsito entre linguagens.

