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Morre, aos 101 anos, o roteirista Walter Bernstein

Perseguido durante o macarthismo, ele é autor do roteiro de 'Testa-de-ferro por Acaso', sobre um roteirista na lista negra

25 janeiro 2021 - 16h20
Bernstein: esquerdista assumido e judeu secular
Bernstein: esquerdista assumido e judeu secular - (Foto: The New York Times)

O nome pode não ser popular, mas sua contribuição para o cinema foi enorme. O roteirista Walter Bernstein, que morreu no sábado (23), aos 101 anos, de pneumonia, é autor do roteiro do filme Testa- de-Ferro por Acaso (The Front, 1976), quase um testemunho das agruras que ele e o diretor sofreram durante o macarthismo. Dirigido por Martin Ritt, com Woody Allen e Zero Mostel nos principais papéis, o filme conta a história de um roteirista (Zero) que entra para a lista negra promovida pelo senador McCarthy e fica proibido de assinar roteiros em Hollywood nos anos 1950, recorrendo a um amigo que trabalha num restaurante (Allen) para assumir o papel de testa-de-ferro.

A exemplo do personagem de Zero Mostel, Walter Bernstein teve de recorrer ao mesmo expediente para sobreviver na era McCarthy. Autoclassificado como um judeu secular de tendência esquerdista, Bernstein chegou a receber uma indicação para o Oscar por causa de Testa-de-ferro por Acaso, o que não deixa de ser irônico. Um homem contra o sistema hollywoodiano, que entrou para o Partido Comunista por influência de sua tia, Walter Bernstein escreveu roteiros para filmes que criticam duramente o imperialismo norte-americanos, entre eles o hoje clássico Limite de Segurança (Fail Safe, 1964).

Dirigido por seu amigo Sidney Lumet, Limite de Segurança é uma espécie de Doutor Fantástico (de Stanley Kubrick) em versão dramática. Em plena Guerra Fria, um erro de computador desloca uma frota de aviões para atacar Moscou e destruir a cidade com duas bombas atômicas, enquanto os russos se preparam para revidar e acabar com Nova York. Bernstein já havia trabalhado com Lumet num filme de 1959, Mulher Daquela Espécie (That Kind of Woman), em que Sofia Loren se vê dividida entre a proteção de um milionário e o amor por um soldado que está prestes a partir para a França ocupada.

Em Paris Blues, de 1961, sua primeira parceria com o diretor Martin Ritt, Walter Bernstein trata de uma tema social ainda mais complexo, a amizade inter-racial entre dois músicos de jazz, um branco (Paul Newman) e um negro (Sidney Poitier) expatriados numa Paris racista. Por essa época já assinava roteiros com o próprio nome, embora ele não apareça nos créditos de duas produções que fizeram grande sucesso, Sete Homens e um Destino (Seven Magnificent Men, 1960) e O Trem (The Train, 1964).

A única experiência de Walter Bernstein como diretor foi no filme A Garotinha Que Caiu do Céu (Little Miss Marker, 1980), sobre uma menina que é dada como garantia pelo pai em nome de uma dívida. Bernstein certamente não será lembrado por ele, mas por sua contribuição como roteirista e professor de cinema - até recentemente, aos 101 anos, ainda trabalhou como conselheiro de alunos de cinema da Universidade de Nova York.

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