
O Globo Repórter volta à grade da TV Globo no dia 20 de fevereiro com novidades na frente e por trás das câmeras. Além da já anunciada presença de William Bonner na apresentação, ao lado de Sandra Annenberg, o programa ganha um visual mais informal e um clima de conversa com o público. As mudanças fazem parte de um pacote maior de ajustes no jornalismo da emissora para 2026, apresentado nesta quinta-feira (5), em evento realizado em São Paulo.
No ar há 53 anos, o Globo Repórter deixa o formato mais engessado de bancada e passa a ser ambientado em um cenário que lembra uma sala de estar. Bonner, que está há 40 anos na Globo e deixou o comando do Jornal Nacional em 31 de outubro, após 29 anos à frente do telejornal, vai aparecer sentado em uma espécie de “sala de casa”, como definiu Sandra Annenberg. O cenário, montado provisoriamente em São Paulo, conta também com novos recursos visuais e gráficos.
O objetivo é criar um clima de conversa entre Sandra, Bonner e o telespectador. Nessa linha, os dois apresentadores decidiram abolir o teleprompter, aparelho que exibe o texto na tela e é tradicionalmente usado em telejornais. Um piloto já foi gravado para testar o novo formato.
“Foi muito divertido, sobretudo porque erramos bastante”, contou Bonner, rindo, sobre a experiência sem o equipamento. Ele lembrou que só havia trabalhado sem teleprompter na cobertura da tragédia no Rio Grande do Sul, e que a dinâmica é “nova” para ele.
Segundo o jornalista, foi dele a ideia de apresentar o programa sentado, e não em pé, como acontecia até então. “É uma mania minha de achar estranho apresentar o programa em pé. Você não convida alguém a aprender alguma coisa com você estando em pé, né?”, explicou.
Sandra, que está à frente do Globo Repórter desde 2019, mostrou sintonia com o novo parceiro de estúdio. “Conheço o Bonner há 35 anos e já trabalhamos juntos algumas vezes ao longo desse tempo”, lembrou.
Bonner revelou ainda que o desejo de migrar para o programa é antigo. Segundo ele, a rotina do telejornal diário já cobrava um preço alto. “Há muito tempo pedi para ser transferido para o Globo Repórter, eu estava cansado do jornalismo diário. Eu não dormia mais direito, talvez cinco ou cinco horas e meia por noite. Estava sempre ligado no JN ou na Globo”, afirmou.
Quando Sandra assumiu o Globo Repórter, vinda do Jornal Hoje, o veterano ficou em outro posto. Ele contou, em tom bem-humorado, que recebeu uma mensagem da colega assim que ela assumiu o programa: “Quando ela assumiu, me mandou uma mensagem: ‘Cheguei’”, recordou.
Nova temporada começa em Nova York
Os dois primeiros episódios da nova temporada serão dedicados à cidade de Nova York. As reportagens serão conduzidas por Nilson Klava, jornalista que recentemente se tornou correspondente da Globo na cidade norte-americana.
Tanto Sandra quanto Bonner também vão sair do estúdio para produzir matérias especiais. Sandra já gravou uma edição da série Personalidades com o cantor João Gomes. A jornalista visitou cidades do interior de Pernambuco para contar a trajetória do artista, um dos principais nomes do piseiro.
“Ele não esperava ser cantor. Começou a brincar, fazer pequenos vídeos, e quando viu, tinha virado o que virou”, adiantou Sandra, sem entregar todos os detalhes do episódio.
Eleições como “Copa do Mundo” do jornalismo
Além da mudança no Globo Repórter, a emissora destacou que o foco do jornalismo em 2026 será o conteúdo, sobretudo na cobertura eleitoral. A Globo transmitiu recentemente o Globo de Ouro e, em março, será responsável pelo Oscar 2026, com grande expectativa em torno do filme O Agente Secreto, indicado a Melhor Filme, Filme Internacional, Direção de Elenco e Melhor Ator, com Wagner Moura.
Mas, para o jornalismo, o principal evento do ano acontece em outubro. “Nossa Copa são as eleições”, definiu Renata Lo Prete, apresentadora do Jornal da Globo, ao falar com jornalistas.
Uma das mudanças mais significativas é o horário dos debates presidenciais: pela primeira vez, eles irão ao ar mais cedo, logo após o Jornal Nacional. Nessas datas, a novela das nove não será exibida.
“Era uma demanda dos profissionais que cobrem as eleições e do público”, explicou Lo Prete. A ideia é aumentar a audiência e facilitar o acompanhamento dos confrontos entre candidatos, que antes se estendiam até a madrugada.
As sabatinas com os presidenciáveis terão um programa próprio, apresentado por Cesar Tralli e Renata Vasconcellos. Em caso de segundo turno, caberá a Renata Lo Prete a condução das entrevistas.
A GloboNews e o g1, que comemoram 30 e 20 anos, respectivamente, devem atuar de forma integrada na cobertura, com reforço do conteúdo digital. A GloboNews ganhará dois novos estúdios: um tradicional de telejornal e outro em formato de arena, voltado a debates, ambos montados no antigo espaço do Jornal Nacional. A infraestrutura será especialmente utilizada no período eleitoral.
Para Lo Prete, apesar das mudanças de formato, o que sustenta o trabalho é a preservação dos princípios básicos do jornalismo. “No momento em que, de maneira geral, a confiança nas instituições está declinante, precisamos de um trabalho contínuo. Um jornalismo 100% comprometido, com apuração ampla, plural e com checagem dos fatos”, afirmou.
Fantástico aposta em quadros com mais proximidade
O Fantástico, também com 53 anos no ar, continuará sob o comando de Maju Coutinho e Poliana Abritta, que devem aparecer mais em reportagens externas. A revista eletrônica dominical ganha novos quadros e a continuidade de formatos que fizeram sucesso nos últimos anos.
Maju estará à frente do Delivery com Maju, em que vai pedir comida por aplicativo e, ao receber o entregador, convidá-lo para um bate-papo. A proposta é gravar o quadro em diferentes capitais brasileiras e também em países da América Latina. “Queremos saber o que pensam nossos vizinhos”, disse a jornalista, ao explicar que o quadro vai além da entrega de comida e busca escutar histórias de quem está nas ruas diariamente.
Poliana Abritta viajará ao Texas, nos Estados Unidos, para uma série sobre avanços no tratamento do câncer. Ela também comandará uma nova temporada de Essa tal de..., desta vez focada na adolescência, discutindo desafios, comportamentos e transformações dessa fase da vida.
O influenciador Felca terá de volta seu quadro, que ganhou repercussão em 2025 ao abordar a sexualização de crianças e adolescentes nas redes sociais. Na nova fase, um dos temas será fobia social. Felca contará com o apoio de especialistas em saúde mental para construir as reportagens e depoimentos exibidos no Fantástico.
A segunda temporada de Pode Perguntar também foi confirmada. No quadro, personalidades são entrevistadas por pessoas com autismo. Tatá Werneck e Matheus Nachtergaele estão entre os primeiros convidados desta nova leva de episódios.
Caco Barcellos, repórter veterano da casa, terá dois projetos. Em um deles, vai mostrar os desafios enfrentados por jornalistas no Brasil e no mundo em um contexto de avanço do autoritarismo e de ataques à imprensa. No outro, comandará um reality show voltado a descobrir novos jornalistas brasileiros, com foco em diversidade e renovação de vozes na profissão.
Documentários ganham mais espaço
A TV Globo também pretende intensificar a produção de documentários jornalísticos. Desde 2020, o departamento já produziu cerca de 20 obras, entre elas Vida de Rodeio, em oito episódios, e Quebra de Julgamento, sobre o cirurgião João Couto Neto, acusado de ser responsável por ao menos 40 mortes de pacientes.
Na GloboNews, o volume é ainda maior: cerca de 50 documentários foram realizados desde então. Para 2026, a emissora planeja lançar novas produções de fôlego.
Entre os projetos previstos está Territórios, que examina como facções criminosas fragmentaram o País em áreas de domínio. Outro título é Anatomia do Post, que discute os efeitos nocivos das redes sociais e do vício em celulares nas famílias brasileiras.
Já Arquivos do Céu promete revelar investigações sobre óvnis, muitas delas mantidas em sigilo até recentemente. A série Voepass revisitará o acidente aéreo que matou 62 pessoas, reconstituindo o caso dois anos depois da tragédia.
A partir de 2027, a aposta está em uma grande produção sobre a Amazônia, em coprodução com a BBC. O documentário será feito para exibição em TV aberta, com foco tanto no público brasileiro quanto no internacional, reforçando a pauta ambiental no centro da programação jornalística.
Com as mudanças anunciadas, a Globo sinaliza que pretende combinar formatos mais próximos e informais — como a nova cara do Globo Repórter e os quadros do Fantástico — com projetos de longa duração e cobertura intensa de temas estruturais, como eleições, desinformação, violência e meio ambiente.

