
Imagine duas pessoas presas em uma ilha deserta, longe de qualquer estrutura social, obrigadas a conviver para sobreviver. A situação já foi explorada pelo cinema em diferentes épocas, mas Socorro!, em cartaz nos cinemas, propõe um caminho próprio ao combinar isolamento extremo, violência e uma leitura direta sobre relações de poder. O resultado é um filme que se afasta do romantismo e do heroísmo para apostar no desconforto.
Dirigido por Sam Raimi, conhecido por trabalhos como A Morte do Demônio e a primeira trilogia de Homem-Aranha, o longa acompanha Bradley e Linda, únicos sobreviventes de um acidente aéreo em uma ilha no meio do oceano. A premissa simples serve de base para um embate psicológico que vai além da luta contra a fome, o medo e a solidão.
Bradley é interpretado por Dylan O’Brien, ator que ganhou projeção em Maze Runner. Ele vive o novo chefe de uma grande empresa, cargo assumido após a morte do pai. No ambiente corporativo, o personagem se impõe pela arrogância: valoriza apenas colegas homens, mantém hábitos pouco profissionais e trata mulheres como figuras secundárias. Essa postura atinge diretamente Linda, funcionária vivida por Rachel McAdams, constantemente diminuída e desconsiderada.
A queda do avião rompe essa hierarquia de forma brusca. Isolados, sem contato com o mundo exterior, os dois passam a dividir o mesmo espaço e a depender um do outro. O que antes era uma relação marcada por ordens unilaterais passa a ser testada em um cenário onde cargos, dinheiro e status deixam de ter valor prático.
Sam Raimi conduz a narrativa com atenção para não repetir fórmulas já conhecidas de filmes sobre isolamento. Socorro! não se apoia em delírios, romances idealizados ou soluções fáceis. O foco está na dinâmica entre os personagens e em como o poder se sustenta apenas dentro de estruturas sociais específicas. Fora delas, o jogo muda.
Bradley tenta manter o controle, mesmo sem qualquer autoridade real. Dá ordens, impõe decisões e insiste em uma posição de comando que já não se sustenta. Linda, por outro lado, revela habilidades essenciais para a sobrevivência e passa a ocupar um papel central. A dependência se inverte, e o chefe se mostra incapaz de seguir sozinho.
O roteiro, assinado por Damian Shannon e Mark Swift, conhecidos por Baywatch: S.O.S. Malibu, constrói esse confronto de forma direta. A ilha se torna um laboratório social onde padrões de comportamento são expostos e colocados à prova. A ausência de testemunhas e regras não gera liberdade, mas tensão crescente.
Raimi adiciona à trama elementos de violência e situações extremas, algumas delas desconfortáveis e até chocantes. Há cenas inesperadas, com doses de sadismo e momentos escatológicos, sempre inseridos para ampliar o impacto da relação entre os protagonistas. Nada surge por acaso; cada escolha narrativa contribui para o olhar crítico do diretor.
Na metade final, o filme perde parte do ritmo. O confronto entre Bradley e Linda passa a seguir caminhos mais previsíveis, e certas decisões podem ser antecipadas pelo espectador. Ainda assim, as atuações sustentam o interesse. Rachel McAdams se destaca ao assumir um papel distante de personagens românticos que marcaram sua carreira, como em Diário de uma Paixão e Questão de Tempo. Dylan O’Brien também entrega uma atuação consistente ao expor as fragilidades de um personagem acostumado ao poder.
Socorro! marca um retorno inspirado de Sam Raimi após o desempenho irregular de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura. Criativo, provocativo e com humor pontual, o diretor mostra fôlego ao usar uma história de sobrevivência como ferramenta para discutir temas atuais, sem perder o entretenimento.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
