
A terceira fase da Operação Barco de Papel, deflagrada nesta quarta-feira, 11, pela Polícia Federal, ganhou contornos cinematográficos logo nas primeiras horas da manhã. Ao cumprirem um dos mandados de busca e apreensão em um apartamento de Balneário Camboriú (SC), agentes foram surpreendidos quando um dos ocupantes lançou pela janela uma mala recheada de dinheiro em espécie. O montante foi recuperado. Além disso, dois veículos de luxo e dois smartphones foram apreendidos.
A ofensiva mira suspeitas de irregularidades em aportes realizados pelo RioPrevidência, fundo de previdência dos servidores do Estado do Rio de Janeiro, em títulos do Banco Master. Ao todo, dois mandados foram cumpridos nesta fase, também em Itapema (SC), por determinação da 6ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro.
Segundo a Polícia Federal, esta etapa foi motivada por “indícios de obstrução de investigações e de ocultação de provas”.
No centro da investigação estão aplicações que somam R$ 970 milhões feitas pelo RioPrevidência no Banco Master. A instituição financeira foi liquidada pelo Banco Central sob suspeita de operar créditos considerados podres e sem garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Sem essa proteção, eventuais perdas podem atingir diretamente os recursos destinados à aposentadoria e pensões dos servidores estaduais.
De acordo com a apuração, as operações teriam sido aprovadas de forma irregular e seriam incompatíveis com a finalidade do instituto de previdência, expondo os segurados a “risco elevado”. A PF investiga possíveis crimes contra o sistema financeiro nacional, gestão fraudulenta, desvio de recursos, indução em erro de repartição pública, fraude à fiscalização ou ao investidor, associação criminosa e corrupção passiva.
Histórico da operação - A Operação Barco de Papel teve como um dos primeiros alvos o ex-diretor de investimentos do fundo, Euchério Rodrigues, e o ex-gerente de investimentos Pedro Pinheiro Guerra Leal. Ambos deixaram seus cargos após o surgimento das suspeitas relacionadas ao caso Master.
Segundo informações do próprio fundo, os papéis foram emitidos entre outubro de 2023 e agosto de 2024, com vencimentos previstos para 2033 e 2034. Atualmente, a autarquia negocia a substituição das letras por precatórios federais.
As investigações também atingiram o ex-presidente do RioPrevidência, Deivis Marcon Antunes. Ele foi preso no dia 3 de fevereiro por agentes da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal.
Deivis havia deixado o comando do fundo em 23 de janeiro, após a primeira fase da operação. Poucos dias antes das diligências iniciais, viajou para os Estados Unidos. Segundo apuração do jornal O Estado de S. Paulo, antes da viagem, em 15 de janeiro, ele passou a evitar a própria residência no Rio de Janeiro e demonstrava receio de ser alvo de uma ação policial.
Ao retornar ao Brasil, desembarcou no Aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo, com conexão prevista para o Aeroporto do Galeão, no Rio. No entanto, não embarcou no voo seguinte. Em vez disso, alugou um carro e seguiu viagem pela Rodovia Presidente Dutra.
A movimentação terminou em prisão. Em uma ação coordenada entre a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal, Deivis foi interceptado e preso em Itatiaia (RJ), a cerca de 200 quilômetros da capital paulista. Ele deixou Guarulhos por volta das 7h e foi detido às 9h.
A terceira fase da operação indica que a investigação avançou para além da análise técnica das aplicações financeiras. A suspeita de tentativa de ocultação de provas e de obstrução reforça o entendimento da PF de que há risco de interferência nas apurações.
O caso envolve valores expressivos e atinge diretamente o fundo responsável pela previdência de milhares de servidores públicos estaduais. Com o Banco Master em processo de liquidação pelo Banco Central, o desfecho financeiro das aplicações ainda é incerto.
A investigação segue em curso.
