
O percentual de famílias brasileiras com algum tipo de dívida chegou a 79,5% em janeiro de 2026, o maior patamar já registrado no país. O índice iguala o recorde observado em outubro do ano passado e revela o avanço do uso de crédito em meio a um cenário de juros ainda elevados.
Os dados fazem parte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada nesta terça-feira (6) pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O levantamento considera dívidas como cartão de crédito, financiamentos, empréstimos pessoais, carnês e cheque especial.
Apesar do aumento do endividamento, a pesquisa aponta um dado que caminha na direção oposta: a inadimplência voltou a cair. Em janeiro, 29,3% das famílias relataram contas em atraso, resultado que representa o terceiro mês consecutivo de recuo. Em outubro, esse percentual era de 30,5%.
Na comparação mensal, o endividamento avançou de 78,9% em dezembro para 79,5% em janeiro. Já em relação ao mesmo mês do ano passado, quando 76,1% das famílias estavam endividadas, o crescimento é ainda mais expressivo.
O peso das dívidas é maior entre as famílias de menor renda. Entre aquelas que recebem até três salários mínimos, o índice de endividamento chega a 82,5%. Já nos domicílios com renda superior a dez salários mínimos, o percentual cai para 68,3%. Desde janeiro, o salário mínimo no país é de R$ 1.621.
O cartão de crédito aparece, de longe, como o principal instrumento de endividamento das famílias brasileiras. Segundo a Peic, 85,4% dos endividados utilizam essa modalidade. Em seguida aparecem os carnês (15,9%), o crédito pessoal (12,2%), o financiamento habitacional (9,6%) e o financiamento de veículos (8,7%). Outras modalidades, como crédito consignado, cheque especial e cheque pré-datado, têm participação menor.
A pesquisa também mostra que o comprometimento médio das dívidas é de 7,2 meses, ou seja, esse é o tempo médio que ainda falta para a quitação dos débitos. Já a parcela da renda mensal destinada ao pagamento das dívidas ocupa, em média, 29,7% do orçamento familiar. Um dado que chama atenção é que 19,5% das famílias afirmam comprometer mais da metade dos rendimentos com dívidas.
O levantamento ouviu cerca de 18 mil famílias em todo o Brasil e considera diferentes tipos de crédito, incluindo prestações de imóveis e veículos. A CNC destaca que o endividamento, por si só, não representa necessariamente um problema financeiro, já que o crédito impulsiona o consumo e movimenta a economia.
O sinal de alerta surge quando as famílias passam a ter dificuldade para honrar os compromissos, caracterizando a inadimplência. Nesse aspecto, a pesquisa mostra que os atrasos seguem mais concentrados entre os consumidores de menor renda. Nos lares com até três salários mínimos, 38,9% têm contas vencidas. Entre aqueles que ganham mais de dez salários mínimos, o percentual cai para 14,9%.
O tempo médio de atraso no pagamento das dívidas ficou em 64,8 dias em janeiro. Além disso, 12,7% das famílias afirmaram que não terão condições de quitar os débitos em atraso, segundo a CNC.
A entidade aponta que o nível elevado dos juros segue como um dos principais fatores de pressão sobre o orçamento doméstico. A taxa básica da economia, a Selic, está em 15% ao ano, o maior patamar desde julho de 2006. Definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, a Selic influencia diretamente as taxas cobradas ao consumidor.
O juro elevado tem sido mantido como instrumento de combate à inflação, que permaneceu por 13 meses acima do teto da meta oficial, de 4,5% ao ano, retornando ao intervalo de tolerância apenas em novembro de 2025. Esse cenário encarece o crédito, reduz o consumo e desacelera a economia, com reflexos também sobre o mercado de trabalho.
Para os próximos meses, a CNC projeta que o endividamento das famílias continuará crescendo, ao menos até o primeiro semestre. A estimativa é que o índice alcance 80,4% em junho. Já a inadimplência deve seguir em trajetória de queda, com previsão de recuar para 28,9% no mesmo período.
Segundo o economista-chefe da CNC, a redução dos juros, sinalizada pelo Banco Central a partir de março, tende a aliviar gradualmente o orçamento das famílias. “A gente vem em um patamar de juros muito elevado, então vai levar um certo tempo para que esse desaperto monetário seja sentido no mercado de crédito”, avalia. A expectativa é que os efeitos mais perceptíveis apareçam entre o fim do segundo e o início do terceiro trimestre.

