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SETOR ELÉTRICO

Advogado vê risco jurídico e pede ajustes em diretrizes do leilão de baterias

Especialista critica foco exclusivo em baterias, contratos de 10 anos e falta de critérios ambientais em proposta do MME

18 janeiro 2026 - 09h40Luciana Collet
Leilão de baterias previsto para 2026 pode ser afetado por novas regras do marco regulatório do setor elétrico
Leilão de baterias previsto para 2026 pode ser afetado por novas regras do marco regulatório do setor elétrico - Foto: Reprodução

A proposta de diretrizes para o leilão de baterias, previsto para abril, ainda precisa de ajustes para evitar riscos jurídicos e alinhar o certame à Política Nacional de Transição Energética (PNTE) e aos compromissos climáticos do Brasil. A avaliação é do advogado e engenheiro Saulo Benigno Puttini, sócio do Levy Salomão e Salomão, que vê possibilidade de judicialização caso o modelo seja mantido como está.

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O Ministério de Minas e Energia (MME) colocou em consulta pública, em novembro do ano passado, a CP nº 202/2025, com regras para o Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência – Armazenamento. É a segunda versão sobre o tema, após uma primeira consulta em setembro de 2024. A versão final ainda não foi publicada.

O principal ponto de crítica é a falta de neutralidade tecnológica. A minuta limita a participação no leilão a sistemas de armazenamento por baterias eletroquímicas, sem, na visão de Puttini, apresentar fundamentação técnica robusta para essa escolha.

Para ele, essa restrição pode contrariar princípios constitucionais de competitividade, isonomia, eficiência e motivação, além de decisões do Tribunal de Contas da União (TCU) e boas práticas internacionais.

“Ouvir a palavra bateria como escolha tecnológica é algo que quase nenhum país está fazendo. Tem exceções, mas com a quantidade de inovação tecnológica que está acontecendo, fazer um leilão de baterias é indicar que vamos ficar mais 10 anos olhando para trás”, afirma.

Puttini lembra que a PNTE prega concorrências com neutralidade tecnológica, justamente para estimular inovação e soluções mais sustentáveis. Ele diz entender a preferência por baterias do MME e do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), por se tratar de tecnologia consolidada, mas defende que o foco sejam atributos de desempenho, e não a tecnologia em si.

Na prática, o edital poderia definir requisitos técnicos mínimos para os sistemas de armazenamento e permitir a participação de qualquer solução que atendesse a esses parâmetros. “Indicando que os sistemas de armazenamento deveriam ter determinados requisitos, talvez 60% a 70% dos contratos fossem para baterias, porque é a solução que tem mais produção em escala, linhas de financiamento estabelecidas, pipeline de financiadores criado, então para um curto espaço de tempo talvez fosse a que mais se encaixasse, mas quando direciona cria outros tipos de risco”, avalia, citando a possibilidade de questionamentos judiciais.

Outro ponto sensível, segundo Puttini, é o prazo dos contratos propostos. A minuta do MME prevê contratos de 10 anos, considerados curtos para projetos de armazenamento, que exigem investimentos intensivos em capital.

Na avaliação do advogado, a experiência internacional indica prazos mínimos de 15 anos, com possibilidade de prorrogação, para dar segurança aos investidores, reduzir riscos e garantir modicidade tarifária. A WEG, empresa brasileira do setor, já manifestou preocupação semelhante.

A justificativa do governo para o limite de 10 anos é justamente evitar “travamento” em uma única tecnologia, em um cenário de rápida evolução tecnológica. Mas, alerta Puttini, isso pode gerar outro problema: a dificuldade de financiamento.

“Só que isso cria um problema de financiabilidade”, diz. Com prazos mais curtos, a tendência é que apenas grandes grupos, com balanços robustos e alto acesso a crédito, consigam disputar. “Talvez só Petrobras e Axia (ex-Eletrobras) vão ter capacidade para se financiar para isso”, sugere.

Puttini também critica a ausência de parâmetros ambientais na minuta. Ele defende a inclusão de exigência de avaliação de ciclo de vida, limites de emissões e algum tipo de pontuação adicional para projetos com menor dependência de minerais críticos, de forma a aproximar o leilão das metas climáticas do país.

“Quando se pega o ciclo de vida das baterias, a extração do minério é extremamente poluente, tem o transporte do equipamento, e no final tem um problema sério de reciclagem tanto dos minerais quanto dos resíduos, e quando se fala de pegada de carbono não se pode desconsiderar”, afirma.

Na visão do advogado, o desenho atual corre o risco de incentivar, sem critério, uma cadeia produtiva com impactos ambientais relevantes, sem premiar soluções com menor pegada de carbono.

Embora o MME trabalhe com a previsão de realizar o leilão em abril, parte do setor elétrico considera provável um novo adiamento. Depois de definidas as diretrizes, caberá à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) elaborar a minuta de edital, submetê-la à consulta pública e, só então, lançar o certame.

Puttini pondera, no entanto, que um atraso moderado neste ano não inviabiliza a meta de entrada em operação dos equipamentos em 2028. “Tem tempo de postergar um pouquinho”, afirma.

Para ele, esse intervalo pode ser uma oportunidade para corrigir pontos da proposta: adotar critérios de desempenho em vez de amarrar a tecnologia, discutir contratos mais longos para ampliar a financiabilidade e incorporar parâmetros ambientais. Com isso, o leilão poderia reduzir riscos jurídicos, aumentar a concorrência e ficar mais alinhado à PNTE e aos compromissos climáticos assumidos pelo Brasil.

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