
A decisão da China de restringir a importação de carne bovina acendeu um alerta no setor exportador brasileiro. Representantes da indústria pediram ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a adoção de medidas emergenciais para reduzir os impactos da chamada salvaguarda chinesa, que já está em vigor e limita os embarques do Brasil ao país asiático.
O pedido foi formalizado em ofício enviado pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e ao Ministério da Agricultura. A preocupação central é com os efeitos econômicos da medida sobre toda a cadeia da pecuária.
Segundo o presidente da Abiec, Roberto Perosa, não existe uma solução única para o problema. “Não há bala de prata. Não tem uma solução somente que resolverá tudo. Estudamos ações estruturantes, um conjunto de medidas, que trarão um resultado satisfatório de redução de impactos, porque haverá prejuízos”, afirmou em entrevista ao Estadão/Broadcast.
O que mudou com a decisão da China - Em 31 de dezembro, o Ministério do Comércio da China anunciou a adoção de cotas específicas por país para a importação de carne bovina. Os volumes que ultrapassarem o limite estabelecido passarão a pagar uma tarifa adicional de 55%. A medida entrou em vigor no dia 1º de janeiro e valerá até 31 de dezembro de 2028.
O Brasil, maior fornecedor de carne bovina ao mercado chinês, recebeu uma cota de 1,106 milhão de toneladas por ano sem tarifa extra. Em 2025, no entanto, o país exportou quase 1,7 milhão de toneladas para a China. Na prática, isso representa uma redução de cerca de 35% no volume que poderá entrar no país asiático sem sobretaxa.
“Se não tivermos uma atitude proativa frente a essa decisão chinesa, pode haver um dano muito grande para a cadeia pecuária brasileira, um dano desestruturante”, alertou Perosa.
Medidas pedidas ao governo - Entre as principais demandas apresentadas ao governo federal está a criação de uma linha de crédito emergencial para o setor exportador, nos moldes das adotadas para empresas afetadas pelo tarifaço dos Estados Unidos no ano passado. A proposta prevê financiamento via BNDES, com juros abaixo de dois dígitos, prazo de pagamento de até cinco anos e período de carência.
Os recursos, segundo a Abiec, seriam usados tanto para capital de giro quanto para investimentos em armazenagem e estocagem da carne.
Além disso, a indústria pede que o governo brasileiro atue diplomaticamente para flexibilizar a aplicação da cota chinesa, com dois pleitos principais:
Redistribuição ao Brasil das cotas não utilizadas por outros países exportadores;
Exclusão da contagem de cargas que já estavam em alto-mar antes do anúncio da salvaguarda.
Estima-se que cerca de 300 mil toneladas de carne brasileira já estavam a caminho da China quando a medida foi anunciada e aguardam liberação alfandegária no país asiático. Segundo a Abiec, essas demandas já estão sendo discutidas entre os governos.
Outro ponto sensível é a forma como a cota brasileira será distribuída internamente. A indústria defende a mediação do governo para definir critérios claros, seja por Estados, por volume mensal ou por frigoríficos habilitados, a fim de garantir previsibilidade aos exportadores.
“O mercado não vai se adequar sozinho. Precisamos de mediação governamental”, afirmou Perosa, citando como exemplo os modelos já usados na cota Hilton e na exportação de carne de frango à União Europeia. A pauta foi apresentada nesta semana ao vice-presidente e ministro do MDIC, Geraldo Alckmin, em reunião com representantes do setor.

