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22 de fevereiro de 2026 - 13h58
CAMARA
ECONOMIA

Trabalho por aplicativo pode atrasar queda da inflação, dizem economistas

Plataformas digitais ajudam a manter renda mesmo com desaceleração do emprego formal e podem postergar convergência da inflação à meta de 3% ao ano

22 fevereiro 2026 - 12h00Francisco Carlos de Assis, Daniel Tozzi e Gabriela Jucá
UBER
UBER - (Foto: Robson Ventura)

A expansão do trabalho por aplicativo e outras formas de atuação por conta própria está mudando o mercado de trabalho brasileiro e pode atrapalhar a convergência da inflação à meta de 3% ao ano. A avaliação é de economistas ouvidos pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, para quem a “nova informalidade” ajuda a segurar a renda mesmo quando o emprego formal perde fôlego.

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Na prática, isso significa que, mesmo com juros altos por um período prolongado e sinais de desaceleração da atividade, a massa de rendimentos tende a cair pouco. Com mais renda circulando, o consumo perde menos força e o processo de desinflação pode ser mais lento do que o esperado.

Mercado de trabalho muda de cara - Em 2025, o Caged registrou a criação de 1,27 milhão de vagas formais, o pior saldo anual desde 2020. Ainda assim, a taxa média de desemprego no ano ficou em 5,6%, a menor da série histórica da Pnad Contínua do IBGE, que considera tanto empregos formais como informais.

O rendimento médio real do trabalho subiu 5,7% em relação a 2024, chegando a R$ 3.560. A massa de rendimentos real habitual cresceu 6,4% no trimestre de outubro a dezembro, sinal de que, mesmo com perda de ritmo na economia, a renda segue em alta.

Para o economista André Perfeito, esses números mostram que a política monetária, sozinha, não dá conta de esfriar o mercado de trabalho. Segundo ele, há uma mudança estrutural em curso.

“Minha hipótese é que o mercado de trabalho está passando por uma mudança microeconômica. Ou seja, a melhoria nos indicadores reflete questões específicas deste mercado. Estou falando de novos arranjos trabalhistas, da existência do trabalho por conta própria – aplicativos, internet e uma dinâmica aspiracional de ser patrão de si. E se você quiser pode colocar nessa conta até o Bolsa Família”, escreveu em análise de 2 de fevereiro.

A ideia é que, diante de uma demissão no emprego formal, o trabalhador encontra rapidamente uma saída em aplicativos de transporte, entrega ou outros serviços via internet, o que reduz o impacto imediato na renda das famílias.

Aplicativos como colchão de renda - O IBGE analisou, em estudo divulgado em outubro do ano passado, o uso de aplicativos no mercado de trabalho a partir da Pnad. Os dados mostram que quem trabalha por plataformas digitais, em média, ganha mais do que quem não atua por apps – mas também enfrenta jornadas mais longas.

Em 2024, o rendimento médio dos chamados “plataformizados” foi de R$ 2.996, contra R$ 2.875 dos demais trabalhadores. Em contrapartida, eles trabalharam, em média, 44,8 horas por semana, enquanto os outros ficaram em 39,3 horas.

O número de pessoas ocupadas em aplicativos cresceu cerca de 25% entre 2022 e 2024, alcançando pelo menos 1,7 milhão de trabalhadores em serviços como transporte de passageiros, entrega de comida e atividades gerais.

Para o pesquisador Daniel Duque, do FGV Ibre, parte da queda do desemprego para mínimas históricas se explica justamente pela popularização das plataformas. Ele estima que a taxa de desocupação poderia estar até 1 ponto porcentual mais alta sem o trabalho via aplicativos.

Com base nos dados do IBGE, Duque afirma ainda que, nos últimos anos, os grupos mais propensos a entrar no trabalho de plataforma tiveram ganho de renda maior do que o restante da força de trabalho. Essa diferença pode chegar hoje a até R$ 300.

Em outras palavras, para esse segmento, os aplicativos não só ampliam as chances de ocupação como também elevam o rendimento em relação a perfis que não seguem esse caminho.

Duque compara o fenômeno a uma política de proteção de renda. “Costumo brincar que os aplicativos se transformaram em uma espécie de ‘programa de emprego garantido’ que alguns países já tentaram implementar. Se você perde o emprego, há essa saída praticamente garantida e um segmento com alta demanda”, diz.

Esse “colchão de renda” dificulta que choques negativos na economia se traduzam rapidamente em queda forte do consumo – o que, do ponto de vista da inflação, tende a sustentar a demanda e atrasar o retorno dos preços à meta.

Caged, seguro-desemprego e desaceleração - O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, aponta que já há sinais de perda de ritmo na atividade, mas reconhece que a massa de rendimentos deve se alterar pouco em 2026 justamente por causa do mercado informal aquecido pelas plataformas.

Ele lembra que, na série do Caged com ajuste sazonal, os trimestres encerrados em novembro e dezembro de 2025 registraram o maior número de pedidos de seguro-desemprego desde julho de 2020, auge da pandemia de covid-19.

“Não estou dizendo que é um mercado de trabalho que vai virar a chave e ficar muito pior ao longo de 2026. Não é isso. Mas talvez tenha um aquecimento bem menor do que o visto em 2024 e 2025”, avalia.

Mesmo assim, Galhardo pondera que, por causa do trabalho via aplicativos, a massa de rendimentos deve mudar pouco este ano, apesar da fraqueza captada pelo Caged.

Debate sobre formalidade e novas formas de trabalho - Nem todos os economistas, porém, enxergam o mesmo movimento de substituição do emprego formal pelo trabalho de plataforma.

Henrique Danyi, economista do Santander, diz ter dificuldade em ver evidências de que o mercado informal esteja absorvendo de forma relevante os trabalhadores demitidos do setor com carteira assinada. Para ele, os dados mais recentes mostram exatamente o contrário.

“Formal é o que está tendo mais resiliência. E a gente até vê isso no próprio Caged, que foi um ponto de contraste em relação à Pnad agregada. Desde 2023 o Caged se mantém no patamar resiliente em relação ao que foi a Pnad por muitos anos. A taxa de formalidade é recorde”, afirma.

Na visão de Danyi, o mercado formal tem sido capaz de absorver parte dos trabalhadores que antes estavam na informalidade. Ele também chama atenção para a forma como se classifica o trabalho por conta própria.

“O trabalhador por conta própria com CNPJ também é formal. Vai ser uma discussão menos de informal–formal e mais de mudança de composição da alocação de emprego”, diz.

Para ele, faz sentido falar em maior flexibilidade do mercado de trabalho, o que pode amenizar oscilações mais bruscas na taxa de emprego. Mas isso não significa, necessariamente, que o informal esteja “amortecendo” uma deterioração forte do formal.

Desemprego baixo, mas inflação resistente - No BTG Pactual, o economista-chefe Mansueto Almeida projeta que a taxa de desemprego deve encerrar 2026 em 6%, acima dos 5,1% registrados em 2025, mas ainda em nível baixo.

Ele lembra que o ano passado terminou com desemprego de 5,1%, mesmo com desaceleração da economia no segundo semestre. Um dos motivos, segundo Mansueto, foi a queda na taxa de participação – o percentual de pessoas em idade de trabalhar que estão efetivamente no mercado.

A participação recuou de 62,6% para 62,1% em 2025. Se isso não tivesse ocorrido, calcula o economista, a taxa de desemprego teria fechado algo em torno de 5,8%, ainda abaixo dos 6,2% do fim de 2024.

Com um mercado de trabalho apertado, renda em alta e novas formas de ocupação ganhando espaço, o caminho da inflação até a meta de 3% ao ano fica mais tortuoso. Para boa parte dos analistas, o “efeito aplicativo” tende a manter a massa de rendimentos mais firme do que em ciclos anteriores de desaceleração, o que pode exigir mais tempo – e possivelmente juros altos por mais tempo – para que a inflação convirja de forma sustentada para a meta.

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