
O dólar voltou a ganhar força na reta final do pregão desta quarta-feira (14), e o real acabou registrando o pior desempenho entre as principais moedas de emergentes e exportadores de commodities. O movimento foi descrito por operadores como uma correção, mas veio embalado por um cenário de maior desconforto geopolítico.
O ponto de maior estresse ocorreu pela manhã, quando o dólar tocou R$ 5,42 após a orientação do Departamento de Estado dos Estados Unidos de suspender a emissão de vistos para cidadãos brasileiros. Depois, a moeda chegou a devolver os ganhos no início da tarde, à medida que o mercado absorveu a informação de que a medida se estende a outros 74 países e não se aplica a vistos de não imigrante, categoria que concentra a maioria dos solicitantes.
Nos minutos finais da sessão, porém, o tema voltou ao centro das atenções, somando-se às tensões no Irã e na Groenlândia, o que reduziu o apetite por risco e deu novo impulso à moeda americana. O dólar à vista fechou em alta de 0,46%, cotado a R$ 5,4008, enquanto o contrato futuro para fevereiro avançou 0,33%, a R$ 5,414.
“A moeda está mais esticada, então pode ser movimento de correção”, avalia o economista Gustavo Rostelato, da Armor Capital, ao comentar o comportamento do câmbio. No acumulado de 2026, o dólar ainda perde 1,61% frente ao real.
Para Rostelato, o principal gatilho do dia foi a notícia de que o Brasil será afetado pela suspensão de vistos pelos EUA, medida que deve passar a valer a partir de 21 de janeiro. Ele pondera, contudo, que a confirmação de que a decisão envolve outros 74 países ajudou a diminuir a pressão inicial.
O gerente da tesouraria do banco Daycoval, Otávio Oliveira, relata que o dólar à vista chegou a R$ 5,4232 segundos após a divulgação da notícia, em um movimento ligado a operações automáticas de mercado. “Mas querendo ou não é um indicativo até que razoável de que cada vez mais os EUA vêm, seja social, política ou economicamente, se isolando de alguns países”, avalia.
Oliveira acrescenta que as tensões no Irã e na Groenlândia contribuem para a saída de recursos de mercados de risco, em um ambiente de maior volatilidade externa.
Instantes depois do fechamento do dólar à vista, o presidente americano Donald Trump afirmou ter sido informado de que as execuções no Irã teriam acabado e que não há planos para novas execuções. Sobre a Groenlândia, disse que “não pode depender da Dinamarca”. As declarações provocaram reversão nos preços do petróleo, que passou de alta para queda superior a 1% no pregão eletrônico, movimento que não chegou a alterar de forma relevante o dólar futuro para fevereiro.
No cenário doméstico, os investidores também acompanharam a nova pesquisa Genial/Quaest, que mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva à frente nos cenários de segundo turno, mas com vantagem menor sobre candidatos de direita.
“Com base na fotografia atual do cenário eleitoral, entendemos que, embora Lula permaneça como o favorito, sua vitória em outubro está longe de ser tratada como dado adquirido”, afirma a Warren Investimentos, em relatório.
Segundo a casa, há um “ponto de alerta” para o presidente: entre eleitores que fogem da polarização ou se declaram independentes, “64% dizem que o presidente não merece ficar mais quatro anos”.
Por outro lado, a mesma análise destaca que a “fragmentação da direita prejudica bastante” uma eventual candidatura presidencial do governador de São Paulo, Tarcísio de Moraes, considerado pelo mercado como mais comprometido com um ajuste fiscal a partir de 2027, caso venha a ser eleito. A Warren observa que Tarcísio tem desempenho melhor no primeiro turno quando essa fragmentação à direita diminui.
“Tarcísio emerge como um candidato que pode rivalizar com Lula, refletindo uma mudança no cenário eleitoral”, avalia Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital. Para ele, a melhora relativa do governador paulista pode influenciar sua decisão sobre disputar ou não a Presidência, mesmo que, hoje, essa escolha ainda dependa da aprovação de Jair Bolsonaro, que tem demonstrado preferência pelo filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como pré-candidato ao Planalto.

