
O dólar firmou queda frente ao real na tarde desta segunda-feira (19), acompanhando o movimento global da moeda americana após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, adotar um discurso mais cauteloso sobre os próximos passos em relação à Groenlândia. No cenário doméstico, o mercado também reagiu à leitura de que pode haver fortalecimento de uma coalizão de direita para as eleições de 2026, após a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro solicitar autorização para visita do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Mesmo com o recuo, o dia foi marcado por liquidez reduzida, em razão do feriado de Martin Luther King nos Estados Unidos, o que limitou movimentos mais intensos no câmbio.
O dólar à vista encerrou o pregão em queda de 0,16%, cotado a R$ 5,364. No acumulado de 2026, a moeda americana já registra desvalorização de 2,28%. O contrato futuro para fevereiro recuava 0,05%, a R$ 5,384. Já o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de moedas fortes, caía 0,35% por volta das 18h.
Pela manhã, o ambiente foi mais tenso. O dólar chegou a tocar R$ 5,3819, refletindo preocupações geopolíticas após Trump ameaçar, no fim de semana, impor sobretaxas a partir de 10% sobre produtos de oito países da União Europeia. A medida seria uma forma de pressionar por um acordo envolvendo a anexação americana da Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca.
Ao longo da tarde, no entanto, o presidente americano evitou detalhar até onde estaria disposto a ir para assumir o controle da região e deixou de reiterar publicamente a ameaça de tarifas. A mudança de tom foi suficiente para aliviar os mercados. Com isso, o dólar chegou a bater mínima de R$ 5,3459, queda de 0,49% no mercado à vista.
“É correto atribuir esse movimento à fala mais branda do presidente americano em relação aos próximos passos dos Estados Unidos sobre a Groenlândia”, avaliou o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo. Segundo ele, o dólar perdeu terreno frente à maioria das moedas globais ao longo do dia.
No cenário interno, o diferencial de juros segue como um dos principais fatores de suporte ao real. Com a taxa Selic em 15% ao ano e expectativa de manutenção nesse patamar ao menos até março, o Brasil continua atrativo para operações de carry trade, nas quais investidores captam recursos em economias de juros baixos para aplicar em mercados com taxas mais elevadas.
“O alto diferencial de juros entre o Brasil e outros países segue favorecendo o câmbio por meio das operações de carry trade”, explicou Ricardo Chiumento, superintendente da mesa de derivativos do BS2.
Além dos fatores externos e monetários, o noticiário político também influenciou as expectativas dos investidores. Para o estrategista da RB Investimentos, Gustavo Cruz, o pedido da defesa de Jair Bolsonaro ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, para autorizar a visita do governador Tarcísio de Freitas ao ex-presidente, abre espaço para leituras sobre o cenário eleitoral de 2026.
Na avaliação do mercado, o gesto pode indicar articulações que mantenham viva a possibilidade de uma candidatura de Tarcísio à Presidência, o que reforçou a percepção de maior organização da direita no médio prazo.
Com menos ruído externo e apoio do diferencial de juros, o real conseguiu sustentar a valorização no fechamento, mesmo em um pregão esvaziado e ainda sensível a desdobramentos políticos e geopolíticos.

