
O dólar aprofundou a queda frente ao real na tarde desta quarta-feira (21) e encerrou o dia cotado a R$ 5,3208 no mercado à vista, recuo de 1,11%. A mínima intradia foi de R$ 5,3153, o menor patamar desde 5 de dezembro de 2025, quando foi anunciada a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República.
O movimento foi sustentado por um ambiente externo mais favorável aos ativos de risco, com investidores globais reduzindo a exposição aos Estados Unidos e buscando alternativas em mercados emergentes. No Brasil, esse fluxo foi acompanhado por forte desempenho da Bolsa, com o Ibovespa renovando recorde histórico intradia ao alcançar 171,9 mil pontos.
Entre os fatores internacionais, o discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o Fórum Econômico Mundial de Davos ajudou a reduzir tensões. Trump afirmou que não pretende usar força militar na questão envolvendo a Groenlândia e, horas depois, anunciou que não aplicará novas tarifas comerciais à Europa a partir de fevereiro.
O real teve desempenho semelhante ao de outras moedas emergentes, que se valorizaram diante da diversificação das carteiras globais para fora dos EUA. Segundo o gestor de fundos multimercados da Azimut Brasil Wealth Management, Marcelo Bacelar, esse movimento favoreceu países com maior apetite ao risco por parte dos investidores internacionais.
“O desempenho do real esteve alinhado ao de seus pares emergentes, que se beneficiaram desse fluxo de realocação global”, avaliou Bacelar.
Apesar de o dólar ter mostrado força frente a moedas fortes após o anúncio de Trump sobre as tarifas à Europa, a queda superior a 1% frente ao real foi mantida ao longo da tarde, inclusive nos contratos futuros com vencimento em fevereiro.
No cenário interno, o mercado também reagiu à divulgação de uma pesquisa AtlasIntel que mostrou redução da distância nas intenções de voto entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. Para operadores, o dado reforça a percepção de alternância de poder em 2026 e influencia expectativas sobre política econômica.
Segundo Bacelar, parte do mercado financeiro acredita que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia trazer mudanças no arcabouço macroeconômico, com maior disciplina fiscal.
“Uma eventual troca de governo deveria trazer um equilíbrio macroeconômico diferente, com um fiscal mais balanceado e prêmios menores exigidos pelo mercado”, afirmou.
O gestor acrescentou que essa leitura está associada à sinalização do senador de seguir diretrizes semelhantes às do ex-ministro da Economia Paulo Guedes, que integrou o governo Jair Bolsonaro. “A cartilha de Paulo Guedes era de política monetária mais frouxa e fiscal mais apertado”, disse.
Além do discurso de Trump, o mercado acompanhou com atenção o julgamento envolvendo a diretora do Federal Reserve (Fed), Lisa Cook. A Suprema Corte dos Estados Unidos indicou tendência a mantê-la no cargo, o que reduziu a percepção de interferência política de Trump sobre o banco central americano.
Para o diretor de Análise da Zero Markets Brasil, Marcos Praça, o tom adotado por Trump em Davos ajudou a aliviar o ambiente global. “Ele foi claro ao dizer que não vai usar força na questão da Groenlândia, o que diminuiu a aversão ao risco”, afirmou.

