
No bairro Guanandi, em Campo Grande, o começo de 2026 tem sido de porta aberta e caixa apertado. De materiais de construção a barbearia, passando por loja de utilidades, escritório jurídico e peixaria, comerciantes relatam um janeiro “mais fraco” e um cenário que, segundo eles, vem se repetindo e se agravando nos últimos anos.
Há cerca de 40 anos na mesma região, a Brazão Materiais de Construção é uma das referências do Guanandi. Mesmo com a experiência acumulada, a percepção é de queda consistente no movimento. “Está parado, muito parado, bem fraco o movimento”, resume Sônia Dantas Galindo, que administra o negócio ao lado de Cícero Galindo.
O problema é que esse “normal” já não é o de anos atrás. “O que já estava fraco no ano passado caiu muito”, afirma Sônia. Ela lembra que, antes, o fim de ano costumava ser melhor para o setor. “Geralmente no final do ano as pessoas reformam mais, então o movimento aumenta. Mas, nos últimos anos, a gente percebe que caiu o movimento”, diz.
Para Cícero, o auge ficou para trás. “Acho que o ano da pandemia foi a última vez que foi realmente bom”, lembra Sônia, enquanto ele completa: “Depois da pandemia, caiu e manteve um movimento mais baixo.” A concorrência com o comércio digital também pesa. “Hoje as vendas passaram muito pro online”, afirma Cícero.
Movimento fraco na Brazão Materiais de Construção precupa os donos Nem o 13º salário anima tanto quanto antes. “No período do 13º não aumenta pra material de construção. O pessoal foca mais em roupas, presentes, viagens. Construção é algo planejado”, explica Sônia. Durante a pandemia, houve uma exceção.
Na vizinhança, eles viram vários pontos fecharem. “Aqui na região vimos várias lojas fecharem. A gente só resistiu porque não paga aluguel”, diz Sônia. Mesmo assim, foi preciso enxugar a equipe. “A gente reduziu funcionários. Tínhamos oito”, conta Cícero.
A análise é reforçada pelo Sebrae/MS. A analista-técnica Andrea Barrera explica que o comportamento do consumidor no início do ano combina despesas acumuladas, dívidas sazonais e cautela nas compras. “O início do ano costuma ser marcado por uma retração natural no consumo, resultado de fatores econômicos e comportamentais”, afirma. Segundo ela, gastos de fim de ano, férias e compromissos como IPVA, IPTU e matrícula ou material escolar “reduzem a disponibilidade financeira das famílias”, afetando principalmente o pequeno comércio de bairro, que depende do fluxo constante de clientes.
No ramo de serviços pessoais, o cenário é parecido. O barbeiro Gilson José dos Santos está há quase dois anos no ponto atual, mas já trabalha na região há cerca de seis anos. Ele conta que, mesmo com a mudança de endereço, o movimento no Guanandi não reagiu. “Aqui nesse ponto, manteve o mesmo critério de movimentação. Não subiu muita coisa, não”, relata.
A reforma recente no trevo Ibirusul, com interdição de avenidas, afetou diretamente a clientela. “A gente ficou 34 dias parado, baixou bastante a clientela por causa da interdição das avenidas”, afirma Gilson. Ele destaca que, tradicionalmente, dezembro era o melhor mês. “Há uns anos atrás, dezembro era muito mais movimentado”, lembra. Mas essa realidade vem mudando. Segundo ele, essa queda se repete há “uns três, quatro anos seguidos”.
Discreta, barberia tem fraco movimento nesse começo de anoMesmo assim, dezembro ainda acaba sendo melhor que o resto do ano, ainda que bem abaixo do que já foi. Janeiro, por sua vez, é historicamente fraco. “Eu já conheço o ramo da barbearia em janeiro. Janeiro geralmente não é tão movimentado. Qualquer barbearia, se você perguntar, vai dizer que não é movimentado”, afirma.
A expectativa é de melhora só depois do carnaval. “A movimentação começa depois. Como se fala, o Brasil começa a funcionar depois do carnaval”, diz Gilson. Com a volta às aulas, ele vê aumento na procura. “Aí tem os alunos indo para a escola, as mães querendo cortar o cabelo das crianças. Aí sim começa a movimentação”, explica.
O ponto é alugado, o que poderia apertar ainda mais as contas. Mas ele conta com uma base sólida de clientes. “Como eu já tenho uma clientela bem fixa, porque estou há seis anos na região, não nesse ponto, mas na região, isso me ajuda bastante a pagar o aluguel. Se não fosse isso, eu estaria bem apertado”, admite.
Na loja de utilidades e conexões de Walter Rosa, a avaliação é ainda mais dura. Há cinco anos no ponto, ele afirma que a tendência é de queda constante. “A tendência é cair. Cada ano que passa você vê mais diminuição”, diz.
Segundo Walter, o recuo se repete ano após ano. “De um tempo pra cá o negócio não tá bom, não. Não tá comércio, não”, resume. Ele conta que nem sente o início de 2026 como um novo ciclo. “Esse ano, pra mim, ainda não começou. Hoje é dia 6. Parece que ainda está em dezembro”, afirma. E projeta dificuldades. “Parece que vai ser mais complicado, mais difícil.”
Movimento na loja de utilidades não animaA percepção não é só pessoal. “Todo mundo fala que, no geral, não é só nesse período. Nos últimos anos mesmo. A tendência é que, todo ano que passa, diminui. Uns 5%, 10%. Não cresce”, relata.
O comerciante admite que pensa em mudar de área ou de localização. “Sinceramente, agora eu vou tentar passar pra outra coisa”, diz. A rotina tem sido de esforço para manter as contas em dia. “A gente vai levando. Paga uma conta aqui, outra ali. Mas ganhar dinheiro, não ganha mais, não. Acho que esse tempo já foi.”
O início de ano também é desafiador para serviços especializados. À frente do escritório previdenciário Dr. PREV, no Guanandi, Fernando Castro explica que dezembro e janeiro sempre registram queda. “O povo demora a engrenar, né? O povo vai meio devagar. Geralmente, no fim do ano e começo do ano, sempre tem uma queda”, afirma.
Para driblar a baixa, o escritório aposta em ações ativas. “A gente tenta de tudo pra não sentir essa queda. Seja através de panfletagem, funcionamento online. Mas realmente a gente vê que o povo é meio descansado mesmo”, diz. O setor jurídico também sofre com o recesso do Judiciário. “A parte jurídica em si tem um recesso no fim do ano, do Judiciário e tal. Então, automaticamente, há um relaxamento da movimentação, até por cultura dos escritórios”, explica.
Como o foco é o INSS, o Dr. PREV não interrompeu as atividades. “Como o INSS não para, a gente nem parou nesse fim de ano. Mesmo assim, há uma queda. A gente tenta sentir menos, mas dezembro e janeiro são sempre mais complicados”, afirma Fernando.
O imóvel é próprio, o que reduz a pressão com aluguel, mas não elimina outros custos. “Tem IPTU. IPTU entra em janeiro, conta. “Tem décimo terceiro, que a gente paga no fim do ano. Sempre aperta um pouquinho. Tem que se programar o ano todo pra não passar aperto.”
Movimento reduzido em comércios do bairro Guanandi, em Campo Grande, no começo de janeiro.O público majoritariamente idoso ainda privilegia o atendimento presencial, embora o escritório também atenda online e tenha clientes de fora da cidade. “A gente sempre dá a opção de atendimento online. Mas, por ser um público mais idoso, que não está muito acostumado, a maioria prefere vir aqui”, explica.
Ele lembra ainda que o ponto físico continua sendo decisivo. “Cerca de 50% ainda é porque passou na rua, viu a placa, a fachada”, diz. Por isso, as obras no trânsito afetaram bastante o movimento. “A gente foi prejudicado quando ficou sem trânsito aqui por um tempo. “A expectativa de melhora existe, mas na prática ainda não deu tempo de sentir”, completa.
Na Peixaria MS, a sensação é um pouco menos pesada, embora o cenário geral seja de cautela. O proprietário Luiz Carlos está há 37 anos na região e define a situação com mais equilíbrio. “Na realidade, o movimento caiu um pouco, mas nada de preocupar, não. Dá pra levar, sem sofrer necessidades”, afirma.
O diferencial do negócio está no foco em pescado de rio de Mato Grosso do Sul. “Se a pessoa quer peixe de rio, ela tem que vir aqui na Peixaria MS”, diz Luiz. Enquanto outros comércios trabalham mais com peixe do Norte ou de cativeiro, ele atende um público específico. “Nós trabalhamos com peixe específico aqui do estado de Mato Grosso do Sul. Então a venda cai um pouco, mas sempre vendemos bem, graças a Deus”, afirma.
O espaço é alugado, mas o impacto maior vem da sazonalidade própria do setor. “A venda forte do pescado é mais em março, na Semana Santa. Então você passa o ano levando e ganha alguma coisa a mais na Semana Santa”, explica. No fim de ano, o comportamento é distinto. “Geralmente o Natal não é muito bom pra pescado, mas o Ano Novo sim. Agora, no Ano Novo vendeu bem, graças a Deus. Vendeu até além do que eu esperava”, conta.
Ele afirma que não houve grandes rupturas em comparação com anos anteriores. “Pra nós aqui, graças a Deus, tem mantido mais ou menos o padrão. Não alterou muito, não teve uma variação muito significativa”, diz. Reconhece que “o pessoal está meio sem dinheiro”, mas avalia que “a renda continua boa, graças a Deus”.
A clientela mistura tradição e renovação. “Hoje, graças a Deus, nesse final de ano, nós notamos muitos clientes novos. Mas já temos uma clientela específica da Peixaria MS, pelo tempo de serviço e pela qualidade dos produtos”, afirma. “Tem um público fiel que vem com frequência.”
Na avaliação do Sebrae, os ramos que vivem do consumo diário são os mais vulneráveis a esse tipo de oscilação. “Os negócios que dependem do consumo diário, como mercearias, padarias, bares e lanchonetes, são mais vulneráveis, pois trabalham com margens reduzidas e alta rotatividade de caixa”, afirma Andrea Barrera.
Ela acrescenta que segmentos considerados não essenciais também sofrem. “Além deles, segmentos ligados a produtos não essenciais como moda, acessórios e serviços pessoais, também sentem a queda, já que esses itens são os primeiros a serem adiados pelo consumidor em períodos de ajuste financeiro”, explica.
Para enfrentar o período de baixa, a recomendação é planejamento e gestão. Entre os principais pontos, Andrea destaca o “planejamento financeiro antecipado”, com criação de reservas para períodos de menor movimento e projeção de fluxo de caixa considerando a sazonalidade. Na gestão de estoque, a orientação é “evitar excessos e negociar prazos com fornecedores para reduzir imobilização de capital”.
Na frente comercial, o Sebrae sugere que o pequeno negócio invista em marketing e relacionamento, inclusive se conectando a iniciativas de valorização do comércio local. Andrea cita o Movimento de Rua, ação do Sebrae/MS que busca “aumentar a visibilidade do comércio local, estimular compras por conveniência e fortalecer a conexão com a comunidade”. Também entram nesse pacote “promoções pontuais, programas de fidelidade e presença digital”, que ajudam a manter o comércio na lembrança do cliente mesmo quando ele está gastando menos.
A mensagem para o empreendedor que começa o ano apreensivo é de que o momento também pode servir para ajustes. “Acreditamos que planejamento e inovação são aliados do pequeno negócio”, afirma Andrea. Para ela, o início do ano é uma oportunidade de “rever processos, ajustar estratégias e se aproximar do cliente”.
“Participar de movimentos que valorizam o comércio local, como o Movimento de Rua, é uma forma de transformar a baixa temporada em um momento de fortalecimento da marca e geração de novas oportunidades”, avalia. Segundo a analista, o Sebrae está disponível “com consultorias, capacitações e ferramentas que ajudam o empreendedor a enfrentar esses ciclos com mais segurança”.
Para a economista Ludmilla Velozo, do Instituto de Pesquisa da Fecomércio MS, a queda no consumo em janeiro é um comportamento sazonal, provocado principalmente pelo comprometimento do orçamento das famílias com despesas típicas do início do ano, como IPVA, IPTU, material escolar e parcelas de cartão de crédito. “Nesse período, o consumo fica restrito ao essencial, o que afeta diretamente o comércio de bairro”, explica.
Segundo ela, pequenos negócios sentem mais o impacto por dependerem do fluxo local e terem menor capital de giro. Dados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), do IBGE, indicam que, em 2024 e 2025, não houve queda no volume total de vendas no Estado, mas a análise por segmentos mostra retração em áreas como supermercados, alimentos, móveis e eletrodomésticos. A expectativa é de retomada gradual a partir da segunda quinzena de fevereiro, com o fim das principais despesas escolares e a movimentação do carnaval e da Páscoa.

