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Economia

Cidades 'novatas' preparam-se para receber montadoras

20 janeiro 2014 - 08h22
Iracemápolis e Itirapina, no interior paulista, mais Araquari, em Santa Catarina, são, em comum, cidades pequenas escolhidas para abrigar montadoras que entram em operação nos próximos dois anos. Os investimentos da Honda, em Itirapina, somados aos das marcas alemãs de luxo Mercedes-Benz e BMW em Iracemápolis e Araquari, respectivamente, somam R$ 2,1 bilhões e devem mudar o perfil agrícola desses municípios, cuja população, em cada um, não chega a 30 mil moradores.
 
O terreno para a chegada das fábricas começou a ser preparado com a instalação de escolas técnicas para formação de operários e a seleção dos fornecedores que vão suprir autopeças e serviços às linhas de montagem. Embora não tenham hoje essa vocação, as três cidades estão próximas de polos industriais de onde os fabricantes de carros vão buscar não só os fornecedores mas também a mão de obra qualificada que precisam.
 
Isso não significa, porém, que nada terá que ser feito nas cidades onde as fábricas de automóveis estão sendo erguidas. Distritos industriais serão criados nelas para abrigar fornecedores que precisam estar perto das linhas de montagem, ao mesmo tempo em que obras viárias devem sair do papel para permitir melhor mobilidade e acesso às novas fábricas. Paralelamente, a expectativa de crescimento na demanda habitacional dá origem a grandes projetos imobiliários e, empolgadas, as prefeituras projetam evolução em progressão geométrica na arrecadação de impostos municipais.
 
Araquari será a primeira a viver essa transformação. De uma economia baseada na agricultura do arroz, da banana e do maracujá, além da criação agropecuária, a cidade, a partir de outubro, passa a ser sede da primeira fábrica da BMW na América do Sul. Em torno de 20 quilômetros dali, na vizinha Joinville, a montadora alemã já treina seus primeiros operários numa réplica da futura linha de montagem. Outra escola foi montada pelo Senai em Araquari para, a partir do mês que vem, iniciar a formação de profissionais como mecânicos e eletricistas de veículos.
 
A preparação da mão de obra, contudo, vai além da qualificação técnica. Como o domínio do Inglês será uma exigência não apenas em cargos executivos dentro da companhia, mas também a fornecedores que desejam vender à BMW, a prefeitura local e a iniciativa privada se uniram na criação de cursos gratuitos de aprendizagem da língua em escolas municipais. "Teremos que fazer a transição de cidade pequena e bucólica para uma cidade industrial em prazo muito curto. Os grandes desafios serão preparar a população e capacitar gestores", diz Gilberto Boettcher, empresário que preside a Ampe, uma associação de micro e pequenas empresas de Araquari.
 
Há dois meses, cerca de 200 empresas da região participaram de uma palestra na qual a direção de compras da BMW informou o que espera de seus fornecedores. "Eles explicaram como vão avaliar cada empresa e deixaram claro que seus fornecedores precisam ter, ao menos, um representante que fale em Inglês para negociar diretamente com a sede em Munique", relata Boettcher. Outra exigência, diz ele, é que as empresas obtenham certificações de qualidade, como o ISO 9000. Desde então, um formulário de cadastro passou a ser distribuído aos interessados em fornecer para a fábrica da BMW.
 
Para Boettcher, a chegada da montadora - gerando também maior demanda por serviços como limpeza e vigilância - deve atrair mais de cem empresas à região. Parte delas vai se instalar em um condomínio industrial próximo ao terreno da BMW. É o caso de fornecedores de insumos estratégicos e de produtos cujo transporte por longas distâncias seria complexo ou relativamente custoso, como os assentos automotivos.
 
A Mercedes, que voltará a produzir carros no País em uma fábrica a ser erguida em Iracemápolis, a 170 quilômetros da capital paulista, está em contato ou faz visitas a potenciais fornecedores desde que definiu os dois modelos a serem montados no local: o sedã Classe C e o utilitário esportivo GLA. O processo não parte do zero porque num raio de no máximo 100 quilômetros, em cidades como Campinas ou Limeira, já estão presentes alguns dos principais fornecedores do grupo no mundo. Ainda assim, três grandes áreas na cidade serão reservadas aos fornecedores que chegarão a Iracemápolis junto com a Mercedes.
 
A exemplo da fábrica da BMW, em Araquari, a capacitação técnica dos futuros operários da Mercedes será feita pelo Senai. Também nos dois casos, as montadoras e a escola da indústria trabalham na elaboração de cursos especiais que vão preparar os operários para a maior complexidade tecnológica dos automóveis das marcas.
 
Em Iracemápolis, a primeira unidade do Senai já estava em construção sete meses antes de a Mercedes, no início de outubro, confirmar seu investimento de R$ 500 milhões. A inauguração da escola, que terá capacidade de ensinar até dois mil alunos simultaneamente, está prevista para junho, após investimentos de aproximadamente R$ 20 milhões.
 
Enquanto a indústria automobilística chega a essas pequenas cidades, o setor de construção começa a se movimentar para aproveitar um aguardado crescimento na demanda por moradias. Na divisa entre Joinville e Araquari, a empresa de empreendimentos imobiliários Hacasa projeta numa área de 38 milhões de metros quadrados a construção de um complexo que vai abrigar desde condomínios residenciais e campo de golfe a novos prédios corporativos e comerciais. Em Iracemápolis, estão previstos dois novos conjuntos residenciais: um deles, com 650 lotes, às margens da rodovia Luís Ometto, e o outro, um condomínio fechado próximo à Mercedes.
 
Após atrair as montadoras, conquistadas também ao custo de incentivos fiscais, as prefeituras fazem agora contas positivas sobre o impacto aos cofres dos municípios. Em Itirapina, onde a Honda está investindo R$ 1 bilhão em uma fábrica com capacidade de produzir 120 mil carros por ano, o Produto Interno Bruto - sustentado atualmente pelo plantio de pinos, eucaliptos e cana-de-açúcar - gira ao redor de R$ 200 milhões, mas, nos cálculos da administração municipal, deve quadruplicar para R$ 800 milhões até 2019.
 
Com isso, a arrecadação do município subirá de R$ 12 milhões para R$ 48 milhões, ou o equivalente a todo o orçamento disponível para 2014, calcula a prefeitura.
 
Da mesma forma, a prefeitura de Iracemápolis prevê que a arrecadação - hoje em torno de R$ 48 milhões - vai dobrar para R$ 100 milhões até 2017 e chegar a 120 milhões quando a linha da Mercedes estiver à plena capacidade.
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