
O segundo e último dia de desfiles das escolas de samba de Corumbá, na noite desta segunda-feira (16) e madrugada de terça (17), teve clima de encerramento de festa, mas com a avenida ainda tomada por fantasia, enredo forte e arquibancada cheia. Cinco agremiações passaram pela Avenida General Rondon e fecharam o Carnaval 2026 com desfiles que misturaram memória, sonho, identidade negra e o apego da comunidade ao samba pantaneiro.
Imperatriz abre a noite em clima de debutante - Quem abriu a programação foi a Imperatriz Corumbaense, que transformou a passarela em um grande baile de gala para celebrar 15 anos de desfiles. Com o enredo “Da Herança aos Imperadores do Amanhã, o Baile de Debutantes da Imperatriz! 15 anos de desfile!”, a escola mostrou cerca de 600 componentes em 16 alas e quatro alegorias.
A comissão de frente encenou a recepção do Rei Momo à “jovem Imperatriz”, marcando o início simbólico do baile. Ao longo do desfile, a escola revisitou enredos e momentos que ajudaram a construir sua história desde 2007, homenageando figuras e causas que marcaram o carnaval corumbaense.
Imperatriz abre segunda noite de desfiles exaltando sua história no Carnaval de Corumbá - Foto: Renê Marcio Carneiro/PMCNas cores branco, vermelho, amarelo e verde, fantasias e carros resgataram personagens, movimentos culturais e projetos sociais da agremiação. A última alegoria, “Os Imperadores do Amanhã”, destacou o trabalho com crianças e jovens e deixou clara a mensagem de continuidade do legado.
Estação Primeira reforça raízes africanas - Na sequência, a Estação Primeira do Pantanal levou para a avenida o enredo “Entrelaços: Heranças Ancestrais”, em um desfile pautado pela força da ancestralidade africana. Com cerca de 800 componentes em 17 alas, a escola entrou falando de dor, resistência e celebração.
No primeiro setor, “A Travessia”, a escola tratou do período do tráfico transatlântico, com a comissão de frente representando a grande Calunga e o mar como espaço de sofrimento e espiritualidade. Um carro em forma de navio tumbeiro reforçou o impacto visual.
Estação Primeira destaca legado cultural e histórico do povo Africano no Brasil - Foto: Ayrton Benites/PMCDepois, o desfile caminhou pela culinária e pela religiosidade afro-brasileira, com alas dedicadas a pratos típicos, ervas sagradas e ao sincretismo religioso. Um dos carros homenageou orixás e líderes espirituais. A bateria com 60 ritmistas manteve o ritmo firme, enquanto o casal de mestre-sala e porta-bandeira e a rainha sustentaram o enredo na dança.
No fechamento, alas sobre samba, capoeira e outras manifestações negras transformaram a General Rondon em um grande manifesto contra o preconceito, exaltando o papel da cultura afro-brasileira na formação do país.
Império do Morro leva o público para o mundo dos sonhos - A Império do Morro entrou em seguida para falar de devaneios e mistérios com o enredo “Entre Devaneios e Mistérios – A Vida é um Sonho”. A verde e rosa apostou em uma narrativa lúdica, mesclando fantasia e reflexão sobre o cotidiano.
O abre-alas “Encontro com Morfeu” apresentou o deus do sono como guardião da viagem que a escola propôs. Alas mostraram a engrenagem da vida, os contrastes entre dia e noite e o caminho entre sonho e pesadelo. O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira representou, no bailado, esse equilíbrio entre luz e sombra.
Com muito brilho, Império defendeu “Entre Devaneios e Mistérios – A Vida é um Sonho” - Foto: Clóvis Neto/PMCUm dos momentos mais leves veio com o setor infantil, que trouxe brinquedos, guloseimas, pipas e o sonho de ser craque de futebol, em uma explosão de cores que despertou nostalgia na arquibancada.
A bateria “Operários dos Sonhos”, conduzida por João Victor Ibarra, levantou o público, enquanto a rainha Raiane Oliveira, em fantasia inspirada em Colombina, desfilou em sintonia com o ritmo. O último carro, “Coroa da Império é Meu Sonho Real”, reforçou a ambição da escola de seguir no topo do carnaval corumbaense.
Marquês de Sapucaí celebra herança africana - A Marquês de Sapucaí entrou na avenida com um recado claro: mostrar como a herança africana está presente na cultura brasileira. Com o enredo “Herança Africana – A diversidade de um continente pluricultural na cultura brasileira”, a escola trouxe 18 alas, quatro alegorias e cerca de 550 componentes.
A comissão de frente “Kizomba – A festa de uma raça” abriu o desfile com clima de confraternização e resistência. O primeiro casal representou Zumbi e Dandara, símbolos de luta e liberdade.
Marquês traz África de glórias, cores, ritmos e ancestralidade para a General Rondon - Foto: Renê Márcio Carneiro/PMCA bateria “O Afoxé”, com 70 ritmistas, desfilou no ritmo do ijexá, enquanto alas temáticas homenagearam orixás como Exu, Ogum, Iemanjá, Xangô, Oxum e Oxalá, com fantasias marcadas por cores intensas e referências religiosas.
A culinária afro-brasileira apareceu na Ala das Baianas, com referências ao acarajé e a outros pratos marcantes. Manifestações como capoeira, congada, maracatu e bumba meu boi completaram a narrativa, amarrada pela alegoria final “Suas Majestades: o Samba e o Carnaval”, lembrando que a maior festa popular do país nasce dos batuques africanos.
Mocidade fecha a festa na madrugada - Já na madrugada de terça-feira (17), coube à Mocidade Independente da Nova Corumbá encerrar os desfiles. A escola entrou tarde, mas manteve a energia em alta e mostrou um conjunto visual bem acabado, com fantasias detalhadas e alegorias bem finalizadas.
Mocidade encerra desfile com orgulho de quem transformou samba em manifesto cultural - Foto: Ayrton Benites/PMCCom evolução compacta e coreografias marcadas em cada ala, a Mocidade contou com o apoio da arquibancada, que seguiu cantando o samba-enredo até o último minuto. A bateria, precisa do começo ao fim, foi um dos destaques da apresentação e ajudou a segurar o ritmo de quem já estava desde cedo na avenida.
O casal de mestre-sala e porta-bandeira arrancou gritos de “é campeã” ao defender o pavilhão com segurança e sintonia. Ao deixar a General Rondon, a escola reforçou o espírito de comunidade e a sensação de que, em Corumbá, o carnaval só termina quando o último tamborim silencia.
Agora, a expectativa se volta para a apuração, que vai definir qual das agremiações leva o título de 2026 no carnaval pantaneiro.

