
Depois de quase 30 anos de gestação, a canção Domingo no Parque, de Gilberto Gil, finalmente ganhou versão teatral. O musical, escrito e dirigido por Alexandre Reinecke, estreou neste sábado (3) no Teatro Claro, no Shopping Vila Olímpia, em São Paulo, e marca a realização de um projeto que o diretor começou a desenvolver em 1995. Com elenco de 21 atores – cerca de 90% deles negros – e direção musical de Bem Gil, filho do compositor, a montagem parte da letra criada em 1967 para o 3º Festival da Música Popular Brasileira e a transforma em uma história de fôlego sobre amor, desigualdade e violência.
Ambientada na Salvador do início dos anos 1970, em plena ditadura militar, a trama acompanha o feirante José (Alan Rocha), o operário João (Guilherme Silva) e a cantora Juliana (Rebeca Jamir), que formam o triângulo amoroso imortalizado por Gil. Antigos amigos de infância, José e João se reencontram em uma roda de capoeira, e o feirante convida o colega para assistir ao show da namorada, sem saber que os dois viveram um romance no passado, interrompido por uma gravidez e um casamento não desejado. Enquanto Juliana se engaja na luta política, José se preocupa apenas em ganhar dinheiro e João, explosivo, observa o mundo com ressentimento – até o domingo no parque em que flagra o casal e o encontro termina em tragédia.
Ao lado da história principal, o espetáculo abre espaço para temas como religiosidade afro-brasileira e feminicídio. Adriana Lessa interpreta Mãe Preta, avó de José e guardiã da sabedoria popular baiana, ligada aos orixás e à natureza. Na trilha, Bem Gil costura 20 canções, entre elas Domingo no Parque, Roda, Preciso Aprender a Só Ser, Pessoa Nefasta, Cálice e regravações como Chiclete com Banana e Retrato em Branco e Preto. O repertório foi sendo ajustado ao longo dos ensaios, com sugestões do elenco e da equipe, e inclui ainda três músicas inéditas compostas sobre letras de Reinecke.
Reconhecido por comédias de grande público e dramas premiados, o diretor assina pela primeira vez um musical e diz que Domingo no Parque é “o projeto da vida”. Já Bem Gil, estreando no palco como diretor musical, acredita que a adaptação chega na hora certa justamente por atualizar uma obra emblemática para discutir racismo, machismo e autoritarismo com um novo olhar. O espetáculo fica em cartaz até 8 de fevereiro, com sessões às quintas e sextas, às 20h; aos sábados, às 17h e 20h30; e aos domingos, às 18h, com ingressos entre R$ 50 e R$ 250.
