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Heitor Freire

LIVRE PENSAR

DA INTERJEIÇÃO!

26 janeiro 2026 - 10h59Por Heitor Freire

Com este artigo concluo minha incursão pelo campo da gramática, e chegamos ao ponto da interjeição, palavra ou grupo de palavras que forma, por si só, frases que exprimem emoção, sensação, ordem, apelo ou descrevem um ruído que pode expressar estados de espírito de forma súbita e intensa. A interjeição costuma ser acompanhada por um ponto de exclamação – podendo até funcionar como uma frase inteira –, é a voz da emoção na língua, permitindo expressar o que as palavras mais formais não conseguem de maneira tão direta e impactante. 

As interjeições são palavras invariáveis que exprimem estados emocionais, ou situações mais abrangentes, sensações e estados de espírito ou até mesmo servem como auxiliares expressivas para o interlocutor, já que permitem a adoção de um vocabulário que dispensa estruturas linguísticas mais elaboradas.

A interjeição é considerada uma palavra-frase, caracterizando-se como uma estrutura à parte, que não desempenha função sintática.

As interjeições podem ser divididas em três grupos:

Interjeições onomatopaicas – são basicamente, sons que criamos com a boca: Ai!, Oba!, Nó!, Oxe!, Ah!, Olá!, Oh!, Ui!, Tchê!, Arre!, Êta!, Ué!, Xi!, Hum!, Psiu!...
Interjeições exclamativas – palavras ou expressões de outras classes gramaticais que exercem a função de interjeição: Credo!, Perdão!, Silêncio!, Chega!, Basta!, Ave Maria!, Macacos me mordam!, Tomara!, Cale-se!, Desculpa!, Céus!...

Interjeições interrogativas – interjeições que vêm acompanhadas do ponto de interrogação: Oi?, Hein?, Quê?, Hã?, Será?, Sério?, Como?, Mesmo?...

A interjeição não se flexiona em gênero, número ou grau, embora existam exceções afetivas ("oizinho"). Ela reflete uma expressão instantânea, sintetiza uma reação emocional completa em uma única palavra ou som, e funciona de forma independente. Geralmente, pode ser separada do resto da frase e ainda transmitir o sentido da emoção.

Como sempre, o que me interessa mesmo é a questão filosófica que envolve cada parte da gramática. A interjeição representou um ponto cego da filosofia da linguagem tradicional.  Durante séculos, a interjeição foi tratada como o "primo pobre" da gramática — vista apenas como um grito instintivo ou um ruído sem estrutura lógica.

No entanto, para a filosofia moderna, a interjeição é crucial porque ela habita a fronteira entre o animal e o humano, e entre o puro ruído e o significado complexo.

Tudo mudou com o filósofo Ludwig Wittgenstein (1881-1951), filósofo austríaco-britânico, que mudou o jogo com suas Investigações Filosóficas. Ele argumentou que a linguagem não serve apenas para descrever o mundo, mas é uma coleção de "jogos de linguagem".

Para ele, a interjeição de dor ("Ai!") não é uma descrição de um estado mental. "A expressão verbal da dor substitui o choro mas não o descreve." Segundo ele, a interjeição é o grito refinado.

Filósofos como o britânico J.L. Austin (1911-1960) e o americano John Searle (1912-2025), argumentam que falar é fazer (na teoria dos atos de fala ela é pragmática). Segundo eles, as interjeições se enquadram na categoria dos atos expressivos:

Diferente de uma frase descritiva, a interjeição tem a função de alterar o ambiente social imediatamente. Quando você diz "Olá!", você não está passando uma informação, você está executando um ritual social de reconhecimento.

Quando você diz "Eca!" está sinalizando uma rejeição biológica ou moral instantânea.

Filosoficamente, a interjeição é o "elo perdido" da linguagem. Elas classificam-se também em interjeições primárias e secundárias: 

As primárias são palavras como "Ah!", "Oh!", "Grrr". Elas são universais, quase biológicas, e nos conectam à nossa natureza animal.
As secundárias são palavras como "Céus!", "Puxa!", "Nossa!", de natureza  cultural, isto é, funcionam de acordo com contextos locais.
A filosofia da biologia considera que a interjeição é o ponto exato em que a biologia (o corpo que sente algo) se transforma em cultura (a palavra).

Já o filósofo americano David Kaplan (1933-) entende que na filosofia da linguagem contemporânea (especificamente na semântica formal) as interjeições são tratadas como indexais. Isso significa que seu significado depende de quem fala e de onde fala:

A palavra "Ai!" não significa "dor" no dicionário da mesma forma que "cadeira" significa um objeto. "Ai!" funciona como uma seta apontando para o estado interno de quem fala. Se eu leio "Ai!" num papel sem saber quem escreveu, a palavra perde seu poder filosófico de significação. Ela exige a presença (ou a simulação da presença) do sujeito, não tem sentido sem contexto.

A filosofia diz que a interjeição escapa da lógica binária (verdadeiro/falso); no aspecto da ontologia, ela está na fronteira entre o “barulho” e a “palavra”. Quanto à ética, a interjeição revela a sinceridade imediata. É difícil mentir com uma interjeição súbita (o susto é autêntico), e por último, quanto à sociologia, a interjeição cria laços empáticos instantâneos (se alguém grita de dor, sua reação é instintiva, não racional).

Enfim, resgatamos a importância filosófica da interjeição!

Heitor Rodrigues Freire – Corretor de imóveis e advogado.

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