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OPINIÃO

O futuro do lixo como capital, o capital do lixo no futuro

Fernando Abrahão*

5 dezembro 2019 - 15h09Fernando Abrahão
O autor é Economista e especialista em Gestão Estratégica de Resíduos
O autor é Economista e especialista em Gestão Estratégica de Resíduos - Foto: Divulgação

É preciso pensar o lixo de hoje com o olhar fixo para futuro. Vivemos em tempos de crescente desenvolvimento tecnológico, num mundo em que as pautas de preocupações não são mais as grandes guerras, a fome ou as grandes epidemias.

A pauta atual está focada no futuro do planeta, seja nas alterações climáticas, seja na necessidade de preservar os recursos naturais, a manutenção do homem em seu meio, como a preservação da Água, do Solo, do Ar, Florestas e das demais fontes de garantia da vida. Nesse sentido, o futuro reserva-nos inúmeros desafios e oportunidades, não se pode perder de vista que as relações humanas já mudaram muito e vem mudando numa velocidade impressionante, os produtos se transformaram, os empregos de hoje serão irrelevantes no futuro e novos surgirão sem que tenhamos a exata ideia de sua configuração.

Estamos diante de um paradigma econômico do mundo moderno, pelo qual nossa relação e ideia de valor e uso dos produtos, materiais e recursos precisa se ajustar aos novos tempos. É preciso que esses ativos permaneçam na economia o maior tempo possível, de tal forma que a geração de resíduos (lixo) seja cada vez mais minimizada e tendente a zero.

Esse é o paradigma, a conversão da Economia Linear em Economia Circular, pela qual os produtos circulem indefinidamente na econômica, esse é o grande desafio da humanidade para o presente com olhar para o futuro.

No lixo há um mundo de negócios e oportunidades. A transição para uma Economia Circular, onde o uso e reuso, o reaproveitamento, a recuperação, a reciclagem e a transformação dos produtos pós-consumo em nova fonte de recurso gerarão riqueza, oportunidades e benefícios não só às pessoas, mas a todo o meio e a cadeia produtiva que circunda entre eles.

Ainda modesta como prática ambientalmente mais adequada, o conceito de Economia Circular vem ganhando corpo, forma e foco no dia a dia das empresas e pessoas no mundo. Países mais desenvolvidos já avançaram muito na gestão dos resíduos sólidos urbanos, bem como na implementação de tecnologias de tratamento e de valorização, e na conscientização, sobretudo dos mais jovens.

É preciso que o Brasil avance nesse mesmo sentido. Ainda somos ineficientes em questões básicas como a correta e adequada segregação dos resíduos em sua fonte geradora (residências e estabelecimentos), os baixos índices de reciclagem do país (3%), em relação aos países mais desenvolvidos (63%) mostra o quanto ainda estamos distantes e atrasados nesse conceito. É difícil? É, mas é possível e é urgente.

A produção per capita de resíduos sólidos urbanos no país é em média pouco mais de 01 Kg/dia de lixo por habitante, ou seja, uma casa com duas pessoas produz mais de 01 tonelada de lixo ao ano, dos quais apenas 30 Kg são reaproveitados e voltam para a economia.

Se há alguma dúvida de que algo precisa mudar, os números falam por si só. Desse total, ou seja, cerca de 970 kg de lixo são depositados em locais inadequados como lixões a céu aberto, rios, mares, sendo que uma pequena parte, cerca de 9% é destinada aos aterros sanitários.

É preciso inovar, buscar lá fora alternativas a mudar essa realidade, é difícil? Sim, mas não impossível, a coleta seletiva é uma realidade em muitos países e permitiu diminuir o índice de “desvio de resíduos” para os aterros sanitários. É preciso olhar os resíduos como recursos, e não mais como lixo, quebrar preconceitos e entender o verdadeiro valor e o papel desses materiais para a economia.

É preciso que União, os Estados e os Municípios fomentem essas práticas e introduzam incentivos adequados para estimular os investimentos e atingir os objetivos de preservação e elevação dos índices de reciclagem de resíduos sólidos no Brasil.

A exemplo disso, a rede europeia de discussão desse tema na comunidade dos países membros, como, a Áustria, os Países Baixos, a Suíça, a Alemanha, a Bélgica, a Suécia e a Noruega há mais de 18 anos, vêm implementando sistemas de incentivo a empresas, cooperativas e organizações públicas e privadas que processam e reaproveitam materiais que antes iriam para o lixo.

Nessa mesma esteira, países como o Reino Unido, a Itália, a França, a Espanha, a Finlândia, a Irlanda, a Eslovénia e a Estónia também fizeram avanços consideráveis promovendo ações integradas entre empresas privadas e a educação básica nas escolas. Em 2001 Barcelona criou o Programa Agenda 21, envolvendo professores, alunos, monitores, funcionários e famílias no desenvolvimento da cultura da reciclagem. Em países como a França, pesquisas revelaram que cuidar do lixo é tão importante quanto votar.

Assim, o Brasil ainda tem muito a evoluir, o desafio de elevar os índices de reaproveitamento de resíduos, em grande medida, ainda está associado à cultura e a educação para a coleta seletiva. Possuímos um caderno de legislações e normas ambientais modernas e rígidas, porém pouco aplicadas e exigidas pelo estado. Precisamos de comprometimento das pessoas, empresas, organizações e do poder público, e acima de tudo, metas exigentes para os próximos anos se quisermos avançar.