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ARTIGO

Dimenstein e a íntima relação entre jornalismo e educação

Por Elisangela Rodrigues da Costa e Maria do Carmo de Almeida*

3 junho 2020 - 17h00Por Elisangela Rodrigues da Costa e Maria do Carmo de Almeida
Gilberto Dimenstein ficou conhecido por suas obras sobre cidadania
Gilberto Dimenstein ficou conhecido por suas obras sobre cidadania - Foto: Divulgação

Em plena década de 60, o garoto Gilberto, paulistano, originário de uma família de marroquinos judeus, com o nome hebraico de Salomão, estudante de uma escola na Vila Madalena em São Paulo, contrariava a tradição da cultura judaica, marcada pela excelência educacional, ao ser considerado um “mau aluno”. Nesse contexto, os sonhos de uma carreira na Medicina ou Engenharia pareciam cada vez mais frustrados para a família, pois o filho, da “turma do fundão”, considerava a escola como um grande problema.

No entanto, apesar da sensação de impotência, ele resistiu, chegando, na década de 1970, ao curso de Jornalismo da Cásper Libero, onde descobriu uma profissão que o levaria a ganhar, várias vezes, os principais prêmios da categoria, como jornalista e escritor.

No exercício profissional, Gilberto Dimenstein ficou conhecido por suas obras sobre cidadania, direitos humanos, comunidade e escola, e por suas reportagens investigativas sobre a prostituição infantil e desrespeito aos diretos das crianças e dos adolescentes. Foi, então, convidado a compor o Conselho Editorial do jornal Folha de S. Paulo e tornou-se comentarista da rádio CBN. Foi, igualmente, um dos fundadores da Agência de Notícias pelos Direitos da Infância (Andi). Enquanto acadêmico visitante do programa de Direitos Humanos da Universidade de Colúmbia, em Nova York, idealizou a Cidade Escola Aprendiz, com sede na Vila Madalena, em São Paulo (SP).

O jornalista acreditava que “o jornalismo e a educação estão intimamente associados”. Em seus comentários, em artigos e entrevistas, aproximou-se das teorias defendidas, desde 1969, pelo estudioso da chamada Teoria Crítica da Comunicação, Theodor Adorno, em relação à defesa de uma educação que colabore para conduzir a sociedade à emancipação, visto que, no dizer deste teórico, “a exigência de emancipação parece ser evidente numa democracia”.

Dimenstein acreditava ter reforçado o caráter pedagógico e educomunicativo em muitos de seus livros. Ele relatava que suas obras eram educacionais, pois trabalhavam a questão da comunicação de uma maneira educativa. Efetivamente, livros como “Aprendiz do futuro” e “Cidadão de papel” possuem uma linguagem jornalística aplicada ao ambiente escolar. Ao elaborá-los, o autor pensava na sala de aula: quais temáticas interessariam, qual matéria, para qual tipo de aluno, como se trabalha isso para os temas transversais. Tal metodologia permitiu que se envolvesse numa série de projetos que deixa como herança para as gerações futuras.

Cidade Escola Aprendiz e a Educomunicação

Por Roberta Tasselli**

Esta é uma linha do tempo com os projetos de Educomunicação desenvolvidos pela Cidade Escola Aprendiz, fundada por Gilberto Dimenstein, ao longo de seus 23 anos de atuação:

1997: Lançamento do Portal Aprendiz, um dos primeiros sites de notícias com foco editorial na relação entre educação e território no Brasil, e da redação-escola – formada por alunos do ensino médio de São Paulo, que dá origem à organização Cidade Escola Aprendiz.
1999: Tem início o projeto Expressões Digitais, que desenvolvia com jovens formação de leitura crítica da mídia.
2004: Início do projeto Rádio Escola Aprendiz, em parceria com a Rádio Brasil 2000. As notícias elaboradas pelos jovens eram transmitidas em um programa de uma hora para todos os ouvintes da rádio.
2004: Início do Projeto Repórter Aprendiz. Pautado na Educomunicação, os educandos utilizavam as mídias como forma de expressão, questionamento e estímulo à participação social. O projeto foi realizado até 2011 e a tecnologia foi reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC) em 2013.
2007: A Cidade Escola Aprendiz é convidada a participar da modelagem do Programa Mais Educação, do MEC, disseminando o modelo do bairro-escola e a Educomunicação para escolas de todo o país.
2008: É criada a primeira Agência Comunitária de Notícias, no bairro de Pinheiros, projeto pelo qual jovens comunicadores da comunidade produziam e divulgavam informações de interesse local. Posteriormente, o modelo foi replicado em outros territórios de São Paulo, como M’Boi Mirim e região central da cidade.
2009: Desenvolve-se a formação dos Agentes Jovens – mobilizadores do programa Jovem de Futuro, desenvolvido pelo Instituto Unibanco. Com duração até 2012, o projeto envolveu estudantes do Ensino Médio de São Paulo, Jacareí e São José dos Campos (SP) e Rio de Janeiro (RJ) e tinha como objetivo a formação de espaços de diálogo na comunidade escolar, a partir da presença e atuação dos jovens nas instâncias participativas da escola.
2015: É estruturada a área de Comunicação para o Desenvolvimento (C4D) na Cidade Escola Aprendiz, que reconhece a comunicação como uma das principais ferramentas para a transformação social e tem entre suas principais estratégias a Educomunicação.
2017: Desenvolvida em parceria com o Canal Futura para o projeto Pedra, Papel e Tesoura, foram realizadas oficinas de HQ para crianças e adolescentes de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, com foco na temática do trabalho infantil. Os quadrinhos criados pelos 50 participantes serviram de insumo para a produção de um gibi, uma cartilha sobre o tema e uma animação produzida pelo Futura.

* Elisangela Rodrigues da Costa (conselheira da ABPEducom) e Maria do Carmo de Almeida elaboraram este texto em 2010, a partir de entrevista com Gilberto Dimenstein, no contexto da produção de uma série de pesquisas que buscava identificar personalidades que haviam contribuído ou estavam contribuindo para a consolidação de um campo que acabava de ganhar uma licenciatura no espaço da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP): a Educomunicação.

** Roberta Tasselli é Gestora da Área “Comunicação para o Desenvolvimento” da Cidade Escola Aprendiz.