Abrem-se novamente as cortinas de mais outra campanha eleitoral. Candidatos mexem-se de um lado para outro, em busca de apoio político. Começa a caça por voto. Precisam de temas de efeito, para engrossar seus discursos. Saúde pública: tema predileto de candidato em campanha eleitoral. É antigo. Nas minhas setenta e oito primaveras azucrina meus ouvidos. Outrora, nos tempos idos, ouvia-se a falácia no rádio e nos palanques. Na imprensa escrita era – e ainda é – matéria de primeira página nas campanhas eleitorais. Posteriormente a televisão, a mostrar a cara risonha dos discurseiros, a falarem bonito de seus projetos “para mudar a saúde pública”.
Entretanto, passa o tempo e as administrações públicas mudam, mas a saúde pública no Brasil continua sempre degradante - e na mesmíssima mazela de sempre -, avolumando-se assustadoramente o número de infelizes a morrerem sem atendimento médico nas extensas filas dos postos de saúde e hospitais públicos, como vemos incrédulos nos noticiários televisivos – tétrico teatro do absurdo, a mostrar ao mundo a miséria humana vicejante na sexta maior economia mundial, como um veemente libelo acusatório contra a insensibilidade do administrador público brasileiro.
Sempre foi assim: baixada a poeira das campanhas eleitorais, e empossados administradores e legisladores, não se fala mais sobre o assunto - saúde pública passa a ser tema de oposição -. É um ciclo político vicioso, que vem desde os tempos do Império, passando de geração a geração, como numa espiral infinita, que marca o político brasileiro como um dos mais corruptos e inoperantes do mundo, notadamente na questão de saúde pública.
Indaga-se a possibilidade de mudar esse comportamento tacanho do político brasileiro, de modo que ele esqueça de seu próprio ego no sagrado desempenho do cargo para o qual fora eleito e, em contrapartida, coloque suas forças vitais e morais na atividade cívica de extinguir para sempre de nossa amada Pátria a degradação da saúde pública, e exclua assim o cenário deprimente de pessoas doentes morrendo absurdamente sem assistência nos corredores superlotados dos hospitais públicos – mazela que marca a cara do brasileiro perante o mundo com o epíteto da insinceridade – como na indelicada definição do general francês Charles De Gaulle, em visita ao Rio de Janeiro.
Creio haver sim tal possibilidade. Basta o eleitor exigir dos partidos políticos a apresentação de candidatos probos, que não façam dos cargos eletivos meio de vida, e sejam possuidores de ilibada conduta moral para o exercício do cargo. Entendo que tanto o administrador como o legislador, eleitos pelo sufrágio nas urnas, devem obrigatoriamente possuir vida pregressa que os recomende civicamente ao exercício do comando da coisa pública, ou seja, possa o eleitor eleger o homem justo, pois este não trai o que lhe confia.
Cabe ao eleitor ter olhos de lince na escolha de seu candidato, e assim, no dizer do arauto José Guimarães, “passar a régua” naqueles que gostam de falar bonito em suas promessas eleitoreiras, como, por exemplo, “melhorar a saúde pública” e outras falácias costumeiras, mas nada fizerem no passado. Sobretudo excluir o portador de ficha suja - aquele político que se locupleta à custa do erário público, mas no exercício do cargo age como verdadeiro caruncho.
O cidadão de bem deve se acautelar contra os afilhados da demagogia, pois eles escarnecem a boa fé de seus incautos eleitores - seus trejeitos afáveis são tão ardilosos como o da cortesã enganadora na conquista do amante.
Advogado*