Sábado, 25 de Maio de 2013 - Editado desde: 01 de agosto de 1980
 
 
 
 
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Maldita ganância
 
Quinta, 03 de Maio de 2012
Autor: Osvaldo Piccinin**
osvaldo.piccinin@agroamazonia.com.br

A vida parecia lhes sorrir diante da fortuna acumulada pelo pai e que, certamente, iriam herdar após sua morte. Fazendas, imóveis, indústrias, casa na praia, ações e muito mais. O casal de irmãos jamais podia imaginar que depois da viúves, seu velho pai iria arrumar um novo “rabo de saia”. Afinal, tratava-se de um senhor beirando oitenta anos de idade, mas muito saudável e elegante. Era um “veião” bonito e malhadão, como se diz.

Lúcido ainda e portador de um tino comercial aguçadíssimo, nunca perdeu esta veia, mesmo em avançada idade. Ele fazia questão de dizer, a quem quisesse ouvir, que caso se tornasse pobre, cem vezes, cem vezes se reergueria financeiramente.

Tanto é verdade que, por duas vezes, doou seu patrimônio aos filhos ficando somente com alguns trocados no banco e uma simbólica mesada para comprar remédios, como dizia aos amigos. Incrível, mas após algum tempo, acumulou a mesma fortuna adquirida, antes das doações. Doava grande parte de sua energia e generosidade para varias instituições, voltadas aos carentes e isso o tornou famoso.

Mas, nas voltas que esta vida dá, podemos mudar de idéia e sonhar com aquilo que quisermos. Afinal, se tem uma coisa que ainda é de graça, neste mundo - é sonhar. Pois bem, por ter hábito interiorano e conservador, dificilmente viajava para muito longe. Dizia-nos que tirava suas férias trabalhando, porque ficar à toa, numa praia, olhando para o céu, embaixo do sol, somente os preguiçosos gostam. E isso ele nunca foi, pois começou “puxar o eito” - carpir roça junto ao pai - com apenas oito anos de idade.

De tanto os filhos insistirem, ele decidiu, pela primeira vez, fazer uma viagem internacional, e conhecer a longínqua Itália - terra de seu pai e avós. E no balanço do navio, veio a conhecer aquela que viria a ser, seu segundo amor. Ou o maior amor de sua vida, como propagandeava.

Moça culta, de feição suave e feminina, com pelo menos a metade de sua idade. Encontrou no velho coração, um jovem ainda viril e cheio de amor para dar. Estava constituído o mais novo casal de uma viagem inesquecível.

Incansável na arte de ganhar dinheiro intencionava deixar a ela, uma pequena parte do que construíra desde que a conheceu. Nada além de um bom carro e uma boa casa. Pouca coisa, diante de sua fortuna.

Sua filha, ave de rapina, conhecida e carimbada pela sociedade, ficou possessa ao tomar conhecimento da intenção do pai. Por longos anos tentou, de toda maneira, dissuadi-lo. Foi em vão. Quanto mais ela o espetava, mais ele se apaixonava.

Solteira e sem ao menos, ter um pernilongo para tratar, foi vencida pela viseira de sua ganância. Seu egoísmo a levou praticar um ato extremo, dando fim à vida de seu progenitor e sua amada.  

Dificilmente milionários vão para a cadeia, nem mesmo o assassino contratado foi preso até hoje. E neste caso não foi diferente. Passou a maior parte de seu cárcere, presa em delegacia e hospital psiquiátrico. E, por apenas dois a três anos. $$orte do bom advogado que a defendeu! 

A namorada do pai, antes da tragédia, e sem nada saber da intenção da víbora, levava uma vida digna e equilibrada financeiramente. Por sua livre e espontânea vontade dirigiu-se a um cartório e sem que ninguém soubesse, nem mesmo o companheiro, assinou sigiloso documento, registrado, onde dizia claramente, que em caso do falecimento do companheiro abriria mão de qualquer direito material que por ventura a justiça lhe viesse arbitrar.

Pena que só veio a público depois da tragédia consumada. Mas aí já era tarde. Arrependida e envergonhada tomou a covarde decisão de dar fim a própria vida, deixando antes, um bilhete se desculpando pelo que fez. Imagino que lá, no “quenturão”, onde se encontra, certamente passará um bom tempo de sua jornada espiritual e chegará à conclusão que sua estupidez e ganância foram em vão.

É como diz o ditado: “herança é uma coisa que os mortos deixam para os vivos se matarem”. Bem, pelo menos, neste caso foi!

ABAIXO A GANÂNCIA E A MENTE DOENTIA!

 

*Osvaldo Piccinin é engenheiro agrônomo, empresário e agricultor.

 
 
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