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SAÚDE

Cientistas descobrem tratamento para síndrome rara

A descoberta de dois novos tratamentos para a Síndrome de Aicardi-Goutieres, através de mini-cérebros criados em laboratório, pode servir também para desvendar a cura do autismo

28 setembro 2017 - 11h00Da Redação
As pessoas que enfrentam a Síndrome de Aicardi-Goutieres nascem com danos no cérebro que comprometem seus movimentos, sua fala e outros aspectos do organismo
As pessoas que enfrentam a Síndrome de Aicardi-Goutieres nascem com danos no cérebro que comprometem seus movimentos, sua fala e outros aspectos do organismo - Divulgação

A partir da criação de mini-cérebros – uma tecnologia totalmente inovadora capaz de reproduzir o desenvolvimento humano através de células-tronco – uma equipe de cientistas da Universidade da Califórnia, liderada pelo Dr. Alysson R. Muotri, que também atua como Chief Scientific Officer da startup de biotecnologia TISMOO, primeiro laboratório do mundo dedicado a análises genéticas focadas em transtornos neurológicos, desenvolveu um tratamento inovador para uma doença rara, a Síndrome de Aicardi-Goutieres. Por terem características semelhantes, a nova descoberta também pode contribuir para o tratamento do autismo e outras condições neurológicas aonde a neuroinflamação exerce papel fundamental, como na esquizofrenia, ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) e o mal de Alzheimer.

As pessoas que enfrentam a Síndrome de Aicardi-Goutieres nascem com danos no cérebro que comprometem seus movimentos, sua fala e outros aspectos do organismo. No entanto, até hoje, não haviam pesquisas suficientes que conseguissem entender a causa da Síndrome, e tampouco seu tratamento ideal.

"Resolvemos trabalhar nessa doença por conta do pouco ou nenhum avanço científico promissor durante anos nas pesquisas realizadas na área. Esses estudos eram feitos com animais que não respondem à doença como os humanos, por isso a necessidade de utilizar as modelagens com células-tronco para novas pesquisas", conta o Dr. Muotri, biólogo molecular e professor da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia (UCSD), que é considerado um dos maiores especialistas em autismo no mundo e foi responsável por essa pesquisa pioneira.

Para o estudo, foi criado um modelo de mini-cérebro derivado de células somáticas dos próprios pacientes e, da mesma forma como ocorre nos portadores da Síndrome, o mini-cérebro também não se desenvolveu. "Os neurônios não sobreviveram e ocorreu uma morte celular muito grande", comenta o biólogo molecular.

A pesquisa então observou o comportamento de outras células que existem no cérebro humano, como as células da glia, que se intercomunicam com os neurônios. Uma das funções realizadas por elas é detectar infecções virais no organismo. "No caso dos portadores da Síndrome, essas células da glia reagem como se estivessem sido infectadas por algum vírus. Os danos percebidos no cérebro dessas pessoas são semelhantes a uma infecção retroviral, como o Zika vírus, por exemplo, causando microcefalia, calcificação no cérebro e outras alterações", explica Muotri.

Isso significa que essas células estavam produzindo uma resposta inflamatória para uma suposta infecção, o que levava a morte celular do neurônio. Porém, o curioso é que essas pessoas e os mini-cérebros reproduzidos não haviam sido infectados por nenhum vírus.

"Queríamos entender de onde vinha essa resposta inflamatória. Ao investigar as sequências repetitivas do genoma, chamado de DNA lixo, observamos que lá existem sequências autônomas que têm a capacidade de se duplicarem e saltarem de uma região para outra dentro do próprio genoma", conta o especialista. "As células da glia reconheciam essa atividade retroviral do DNA como se fosse uma infecção viral exógena, vinda do ambiente, quando, na verdade, isso acontecia dentro de si mesma", completa.

Sendo assim, foi possível descobrir então que a doença reage a um elemento que é do próprio organismo, denominando-se uma doença autoimune. "As pessoas afetadas por essa Síndrome têm mutações nos genes que reprimem a atividade do DNA lixo. Descobrimos que a inflamação no cérebro pode ocorrer independente de fatores externos, estando dentro da própria célula nervosa", cita o doutor.

Com essa descoberta, foi possível associar essa mesma resposta anti-inflamatória aos casos dos portadores do vírus HIV. Com isso, foram utilizados fármacos (anti-retrovirais) já existentes no mercado para tentar um possível tratamento para a síndrome rara, na tentativa de diminuir a atividade desses elementos endógenos (internos) do genoma, com a intenção de reduzir a resposta inflamatória e evitar a morte celular. "E os resultados foram ótimos, pois o mini-cérebro se comportou de forma normal, sem sequelas", comemora o pesquisador.

Os cientistas do laboratório usaram outro método terapêutico para testar sua eficácia, com drogas que são capazes de bloquear aquela resposta que a célula sinaliza para induzir a morte celular do neurônio. "Optamos por uma droga que já está sendo testada clinicamente para tratamento de artrites", diz Muotri. E, mais uma vez, a opção de tratamento surtiu efeito, chegando a descoberta de dois novos tratamentos possíveis para a Aicardi-Goutieres.

Mais um ponto positivo da pesquisa é a recolocação de drogas já conhecidas e utilizadas para outras doenças para tratar essa nova patologia. Isso facilita e agiliza o processo, pois a aprovação de um novo medicamento exige custos enormes e um longo tempo de teste. Desta forma, os colaboradores de Muotri já iniciaram os ensaios clínicos para a Síndrome na Europa. "Acredito que é a primeira vez na história da ciência que um grupo revela um mecanismo novo para explicar a patologia de uma doença, encontra um possível tratamento e inicia um ensaio clínico em tempo recorde", afirma o doutor.

Em busca da cura para o autismo

Após o desenvolvimento do estudo para a Aicardi-Goutieres, chegou-se à conclusão que esse mecanismo de neuroinflamação pode ser mais um passo dado na cura do Transtorno do Espectro do Autismo. Isso porque no autismo também se observa essa resposta inflamatória crônica, que até hoje ninguém sabe de onde vem, e a nova descoberta pode ajudar também em seu tratamento.

"É possível que essa região do DNA esteja causando a resposta inflamatória no autismo. Ou seja, o autismo também teria um componente autoimune, não precisando de nenhum fator externo para o início de uma resposta inflamatória. A inflamação no autismo seria codificada geneticamente e passível de modificação através de tratamentos", explica Muotri.

O que a TISMOO pretende agora é estender o uso desta mesma tecnologia utilizada para a Síndrome de Aicardi-Goutieres para o autismo. A ideia é estimular o entendimento de que já existe tecnologia suficiente para fazer o mesmo tipo de exploração e acelerar o processo de recolocação de drogas para o autismo e que, para isso, bastam apenas mais incentivos e investimentos em P&D.

Os estudos terapêuticos para o autismo ainda não começaram. "Agora, queremos saber se existe um subgrupo de autistas em que isso acontece e que seja identificado geneticamente. Com isso, conseguiremos desenhar um estudo clínico mais personalizado, recrutando apenas aqueles que irão possivelmente responder ao tratamento", diz o especialista. Ainda não se pode afirmar que a causa do autismo é totalmente genética, pois não foram descartados todos os fatores ambientais externos, mas esta descoberta serve de alerta para uma nova possibilidade.

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