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Campo Grande já registrou 598 tentativas de suicídio só em 2015, revela Sesau

Dados alarmantes sobre suicídio em Campo Grande chamaram atenção de autoridades e especialistas durante audiência

18 novembro 2015 - 14h26Da redação
Divulgação
HVM

Em Audiência Pública realizada na manhã desta quarta-feira (18) na Câmara Municipal, dados alarmantes sobre o suicídio em Campo Grande chamaram atenção de autoridades e especialistas que debateram ações de prevenção deste ato que, só em 2014, ceifou 53 vidas na Capital.

Representando a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), a enfermeira do Núcleo de Prevenção de Violências, Laura Maria Souza de Linhares afirmou na Audiência que foram registrados 53 óbitos e 750 tentativas só no ano passado. Em 2015 já foram registradas 598 tentativas até o mês de outubro. “Cada ano tem um crescimento tanto nas tentativas quanto nos suicídios. São dados que podem ser maiores, pois muitos familiares têm vergonha de dizer que a pessoa se matou e não registram o suicídio. O suicídio em 90% dos casos é evitável, não é uma morte que a pessoa não demonstra sinais. 90% das pessoas evidenciam sinais, em ações ou falas, alertando sobre a possibilidade de suicídio. O suicídio responde pela terceira causa de morte em 2014 dentre as causas externas. A tentativa também é a 3ª violência mais registrada. Ou seja, ser humano está em sofrimento, este é um problema complexo. A principal faixa etária que pratica o suicídio é o jovem de 15 a 34 anos. O setor de saúde desempenha papel fundamental nessa prevenção. Quando a pessoa tenta o suicídio ela chega a Unidade de Saúde 24 horas, que tem um assistente social, que é um grande diferencial, pois não é comum nos outros municípios, que faz o acolhimento do paciente e seus familiares. E então ele é encaminhado para a rede CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). São seis CAPS em Campo Grande, sendo dois 24 horas. Este é um grave problema de saúde pública, com uma demanda bastante elevada, às vezes tem uma fila, mas elas são priorizadas no atendimento”, afirmou.

Em seu pronunciamento, o professor e pesquisador do Hospital Universitário e capelão do Corpo de Bombeiros, Edílson dos Reis revelou que “quando um caso de suicídio é notificado, quatro outros não são, então esse número de 598 suicídios em 2015 é muito maior. É triste quando vemos crianças de 10 anos tentando suicídio, um adolescente de 14 anos querendo tirar a própria vida e uma menina de 12 anos que quer por fim à vida. Essas crianças estão dentro das unidades escolares. Na UFMS temos condições de capacitar os professores a trabalharem com a prevenção ao suicídio. Precisamos trazer isso como pauta. Temos que marcar audiência com a ACP para começarmos esse discurso com os professores. A lei já foi sancionada e agora o que precisa é normatizarmos isso para capacitar os professores. Temos condições de capacitar eles e termos efetividade prática. Fazemos um Curso de Prevenção de Suicídio, que é o primeiro do Brasil. Estamos debatendo algo fantástico, que é a vida. Estamos criando o laboratório de luto, para trabalharmos essa questão de familiares que perdem pessoas para o suicídio”, disse.

Vale ressaltar, que os vereadores de Campo Grande aprovaram a Lei nº 5.613/15, de autoria do vereador Carlão, que dispõe sobre a implantação de medidas de prevenção ao suicídio nas escolas municipais de Campo Grande MS, a qual foi sancionada e publicada no Diário Oficial no dia 30 de setembro deste ano.

A assistente social do Setor Psicossocial de Apoio ao Servidor Penitenciário, Maria Roseneuza dos Santos salientou que “o suicídio é assunto delicado, é um tabu. Vejo um assunto permeado pelo preconceito. No âmbito da segurança pública o suicídio é o ápice, o ponto culminante da depressão de forma trágica. Lidamos com a depressão de forma errada e muito preconceituosa. A gente protege, a depressão ou é frescura ou não é coisa de homem. Com isso estamos suscitando para que tudo isso aconteça Este é um problema da nova geração, a geração do tudo pronto, que não está disposta a construir e com a falta do construir e o vazio se instala, culminando com o suicídio. Temos que romper esse preconceito, é uma coisa que deve ser levada a sério”, disse.

Para o coordenador de divulgação do Grupo Amor Vida-GAV (antigo CVV), Roberto Sinai, “o suicídio é um problema de saúde pública. Atendemos diuturnamente pessoas que nos ligam e não julgamos, não direcionamos, não aconselhamos. Ela fala sobre aquilo que incomoda. Não temos, nem somos profissionais da saúde mental, somos voluntários, com espírito de amor ao próximo, para oferecer o melhor que temos. Falar é a melhor opção, pois uma dor não compartilhada dói mais. Então damos à pessoa essa oportunidade do desabafo, de falar dos sentimentos dela, temos a certeza que naquele momento ela não vai se auto destruir”, afirmou

O Tenente Ivanaldo Ferreira dos Santos, que é capelão evangélico destacou que “O Exército preocupado com esse índice crescente de suicídio está implementando a nível nacional um projeto de valorização da vida para combate e prevenção do suicídio, com uma equipe multidisciplinar composta de psicólogos, psiquiatras, capelães militares, visando diminuir, evitar, conscientizar e orientar os militares para reduzir o índice alto de suicídio em toda sociedade”, destacou.

O psicólogo da Coordenadoria de Atendimento Psicossocial da Polícia Civil/CEAPOC/MS, Carlos Afonso Marcondes Medeiros atua há mais de 30 anos na profissão de psicólogo e afirmou que já conseguiu evitar que muitas pessoas praticassem o suicídio. “Estamos fazendo alguns trabalhos na Polícia Civil que poderiam ser ampliados para a sociedade. Temos o Projeto ‘Tira Solidário’, que trata do bom amigo, para que a corporação observe algum sinal de transtorno mental, de adoecimento, de sofrimento para fazermos uma abordagem, principalmente aqueles policiais que se acham super-homem. O policial tem um agravante: ele usa uma arma, ele pode usar essa arma contra si mesmo. Ouvir é muito importante, abordar a família, pois quem pode ajudar uma pessoa que está em sofrimento mental e ideação suicida, é quem está ao seu lado. Este grupo está atento, junto com os colegas observando, nos passando informação de que tem uma pessoa que não está bem”, disse o psicólogo destacando ainda que “política pública se constrói com discussão, com debate e reunião técnica. Temos que reunir os técnicos e fazer a rede, pois o trabalho de rede é fundamental para fazer a prevenção”, revelou.

A Audiência contou ainda com a participação de Jucinéia Costa, assistente social do Fundo de Assistência Feminina da PM; tenente José da Cruz Gomes de Araújo, capelão católico da 9° Região Militar do Exército, Giovana Guzzo, psicóloga representando o Conselho Regional de Psicologia de Mato Grosso do Sul; Veralice Carneiro Lima, presidente da diretoria administrativa do Grupo Amor Vida (GAV) e o coordenador de Defesa Civil de Mato Grosso do Sul, Coronel Isaías Ferreira Bittencourt.

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