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Série 'Kieler Street' mostra cidade tranquila que é um refúgio para criminosos

Patrik Syversen foi o criador conceitual e diretor

12 julho 2020 - 13h58
O primeiro episódio é para apresentar o personagem, e a cidade
O primeiro episódio é para apresentar o personagem, e a cidade - (Foto: Divulgação)
HVM

Grande sucesso internacional da TV norueguesa, Kieler Street chegou ao canal fechado Film & Arts Brasil, que o exibe às terças-feiras. Patrik Syversen foi o criador conceitual e diretor. Ele também adquiriu projeção em todo o mundo com Manhunt, que foi refilmado em Hollywood. Thorbjorn Harr faz o protagonista Jonas, que chega a uma pequena cidade fugindo do passado. Ele ganhou uma nova identidade, uma família, parece a vida perfeita, numa comunidade feliz.

Kieler Street começa com um sobrevoo sobre a floresta, até chegar à cidade, a Jonas. O primeiro episódio é para apresentar o personagem, e a cidade. O cenário é real, próximo a Oslo, mas o que Jonas descobre é que não é o único nessa situação. Todos na cidade vivem sob identidades falsas, escondendo o passado. Logo, esses passados, no plural, começam a cruzar-se e a cobrar seu preço, tecendo uma teia que, ao longo de dez capítulos, mantém o espectador em suspense.

Numa entrevista por telefone, de Oslo, o ator que faz o papel, Thorbjorn Harr, conversa com a reportagem do Estadão. Fala um pouco de sua carreira internacional - 22 de Julho, de Paul Greengrass -, mas o assunto é a série.

Ele promete: "Tem um desfecho bem forte. Se eu estiver mentindo, você me liga de novo, para reclamar". Comenta sobre o isolamento. Apesar da flexibilização em quase toda a Europa - a entrevista foi feita por telefone há cerca dez dias -, ele ainda cumpria a quarentena. Tem feito algumas lives, e conta que podem ser encontradas na internet. Acompanha a situação brasileira, e comenta como deve ser difícil enfrentar uma crise sanitária das dimensões da covid-19 no desgoverno que o mundo todo identifica no Brasil. Conta que, no retrospecto, consegue até fazer certo paralelismo com a situação atual, e a série.

"O universo da cidade é fechado como o mundo em que estamos vivendo. Mas é claro que essa é uma leitura que o espectador pode fazer nas atuais circunstâncias e não tem a ver com a intenção original." Jonas, a cada capítulo se aprofunda no próprio passado. "São flash-backs que vão ajudando a desvendar quem é esse homem, e o que ele fez." Cada episódio cruza as lembranças de Jonas com as dos demais personagens. Patrik (o diretor) foi muito inteligente filmando antes todas as cenas passadas. Elas ajudaram a construir o personagem no meu imaginário. Sabia exatamente quem ele era, e agora quem está tentando ser."

Thorbjorn - pronuncia-se Tórbiórn - brinca com o próprio nome. "Thor é o deus nórdico do trovão. Está no nosso imaginário, ligado à natureza, filho de Odin, mas hoje em dia, na própria Noruega, ele tem a cara e o martelo de Chris (Hemsworth) como super-herói da Marvel." Ele conta que Syversen escreveu a série com Jesper Sadness e Stig Frode Henriksen, e o segundo já havia sido seu parceiro em outra série, Hellfjord. "A ideia foi de Stig, essa pequena cidade onde as pessoas trocam de identidade e tentam levar vidas comuns. Patrik acrescentou a dimensão existencial, filosófica, e creio que seja esse o diferencial da coisa toda. A série anterior dele, Hellfjord já era sobre pessoas que escondem vidas secretas. É algo muito escandinavo. Vivemos numa social-democracia, onde as regras são muito claras e as pessoas são estimuladas a levar vidas muito transparentes. Mas aí ocorrem coisas como a situação em Utoya, descrita em 22 de Julho (a série de ataques terroristas). A natureza humana é complexa, não cabe dentro de regras. Muitas pessoas se reprimem e desenvolvem uma fachada, que um dia se rompe."

E ele vai mais longe. "Patrik (Syversen) sempre teve muito claro, e dizia isso para a gente, que Kieler Street não é um 'whodunit' tradicional. Nosso tema não é quem matou, ou vai matar, mas quem são as pessoas." Outra forma de refletir sobre o mundo, e a atualidade. "No fundo, o que Patrik e Stig estão propondo é um novo olhar para a normalidade, para a alteridade. A normalidade não existe, quem é, ou o que é esse outro que nos limita e assusta?"

Isso leva ao xis da questão - Thomas Hobbes. "Com certeza. Syversen e Stig basearam-se em conceitos do autor de Leviatã sobre a organização social e uma sociedade forte que limite o instinto selvagem dos homens", acrescenta.

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