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AGRICULTURA FAMILIAR

Há dez anos, pesquisadora estuda sobre fruta que é, hoje, símbolo do MS

Pelos experimentos foi possível descobrir, por exemplo, que as sementes da guavira não devem passar por secagem, caso contrário, o insucesso é garantido

17 dezembro 2017 - 07h00
Com cerca de um hectare de terra dedicada à guavira, a pesquisadora esclarece as razões da modéstia proporção
Com cerca de um hectare de terra dedicada à guavira, a pesquisadora esclarece as razões da modéstia proporção - Divulgação

Com alto potencial nutritivo e farmacológico, forte influência na cultura regional e, agora, fruta símbolo do Mato Grosso do Sul, graças à lei nº 5.082/2017, sancionada pelo governador Reinaldo Azambuja, a guavira há 10 anos é estudada cientificamente pela Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer). O assunto é levado tão a sério que vem rendendo bons frutos no campo e fora dele, “Inclusive, a guavira foi tema de tese de doutorado”, revela a engenheira agrônoma Ana Cristina Ajalla, que está à frente das pesquisas no Centro de Pesquisa e Capacitação (Cepaer ) da Agraer, que fica na saída para Rochedo.

De lá para cá, a pesquisadora calcula algumas das conquistas alcançadas com o estudo, como a implantação de unidades demonstrativas – pequenas áreas de cultivos nos sítios assistidos pela Agraer. “Hoje eu tenho uma unidade sendo cultivada que foi implantada no ano passado. Eu falo que nós estamos andando bem devagar justamente para evitar problemas. Neste ano de 2017, estamos implantando outras cinco unidades”. Ana Cristina conta que a ideia da pesquisa surgiu pelo desejo de agregar a preservação do material genético com as boas práticas da agricultura familiar de cultivo e renda. “São poucas as pessoas que não gostam de guavira e o fruto tem um alto potencial de comercialização. Então, porque não utilizar o cultivo como uma opção para os agricultores familiares. Foi pensando em juntar essas duas coisas que nós passamos a pesquisar o cultivo da guavira a partir de 2007”.

Com cerca de um hectare de terra dedicada à guavira, a pesquisadora esclarece as razões da modéstia proporção. “O que a gente sempre orienta nas unidades? Elas têm que vir a partir da assistência técnica da Agraer, da extensão rural, e ter um profissional, um técnico responsável para acompanhar tudo. Porque se você passa uma muda e essa pessoa não tem uma orientação adequada, futuramente, ela abandona o projeto”, justifica.

Entretanto, Ana Cristina salienta que o incentivo na agricultura familiar para o cultivo é decorrente de resultados obtidos muito antes das unidades demonstrativas. “A primeira coisa que nós descobrimos é como que se faz uma muda. Como é que eu faço muda? Semeio? Eu arranco, tiro com raiz? Como é que a gente vai fazer a muda de guavira? Essas perguntas foram as primeiras a serem respondidas com a pesquisa”.

Pelos experimentos foi possível descobrir, por exemplo, que as sementes da guavira não devem passar por secagem, caso contrário, o insucesso é garantido. Outro ponto é a questão das mudas, as mesmas devem permanecer de 11 a 12 meses no viveiro para só depois ganhar o campo.

“A gente diz que a guavira é alógama, o que é isso? Significa que a planta precisa fazer o cruzamento com outra. Têm plantas que são autógomas, ela sozinha vai dar o fruto. Já a guavira vai precisar de outra para fazer o cruzamento. Você tem que ter duas pelo menos para cruzar e ter o fruto. Pode acontecer de uma só dar fruto? Pode, mas, provavelmente, vai dar pouquinho fruto. Casos em que ela não vai dar aquela quantidade linda que você quer”, avalia.

E as descobertas não param por aí. “Hoje a gente fala que a partir do terceiro ano no campo é que a planta passa a produzir, ou seja, você teve um ano de viveiro, três anos a céu aberto, só aí são quatro anos para, então, começar a produzir”, alega Ana Cristina, que com essas respostas em mãos pôde fazer mais descobertas, “Percebemos outras coisas, por exemplo, qual o espaçamento que eu uso. No início, usamos um espaçamento que não era o adequado. Passamos a usar e a testar diferentes espaçamentos com a planta para ver qual seria mais adequado”.

Optar pelo cultivo sem irrigação também foi prioridade nos estudos. “Quando a gente coloca direto no campo significa que a gente está colocando uma tecnologia mais acessível e possível ao produtor. Uma fruta sem irrigação tem uma produção que não é tão cara. É o que justamente a gente tá procurando fazer, uma coisa que não seja tão cara ao agricultor familiar”.

Outro cuidado mantido são as recomendações aos produtores. “A nossa orientação é sempre começar pequeno, não começar grande. Tem muita coisa que precisa ser estudada, por isso a gente está com muito cuidado com essa questão de cultivo por parte do produtor. Queremos incentiva-los sem que eles possam ter algum prejuízo ou problema que não possa resolvido”.

Planta nativa que carrega em seu DNA a origem histórico-cultural indígena. A guavira também conhecida como guabiroba é um fruto com nome indígena de origem Guarani, que significa “árvore de casca amarga”. Definição que ao que tudo indica vem pelo costume dos índios de a usarem para fins medicinais.

Atualmente, sabe se que um único fruto pode conter até 20 vezes mais vitamina C do que a laranja. A guavira também oferece o magnésio, ótimo para digestão, o fósforo e o cálcio que deixam os dentes e ossos fortes e o potássio, indicado para os atletas e amantes de atividades físicas, por fortalecer os músculos.

Propriedades que há décadas não foram imaginadas em um fruto que nasce em um arbusto que não ultrapassa os 1,5 m de altura. “Quem estudou ela até agora? Os estudos são poucos. Pode surgir alguma praga de difícil controle. É muito importante que a gente esteja pesquisando para que se possam antecipar os problemas ao agricultor. O produtor não tem que passar por isso”, afirma.

E se não são bastasse às benesses ao organismo humano ou os desafios no cultivo e combate de pragas e doenças, a pesquisa evidencia a preservação do material genético, outro importante pano de fundo dos trabalhos de Ana Cristina Ajalla. “Praticamente a gente não tem produtores de fato. No máximo, o que temos são pessoas que deixaram uma área ali e colhe, mas ela ainda é uma guavira nativa. Hoje, existe uma grande informalidade no mercado que é um mercado extrativista. A gente diz que quando você faz o extrativismo você corre o risco de perder material genético e o produto”.

O extrativismo mesmo que aparentemente inofensivo cria tanto um cenário ideal para a extinção como desvaloriza o produto. “Hoje o mercado é informal. Você pode ver que você compra a guavira por litro. Já viu no mercado comprar alguma fruta por litro? Você compra por quilo, não é litro”.

Informalidade que semeia riscos de degradação da espécie, aos lucros das famílias agrícolas que comercializam o fruto e a preservação de algo que tem sua importância na identidade biológica e cultural do cerrado. “A base do suco e do picolé da guavira que vai para as indústrias ela é toda extrativista. É um problema, principalmente, agora que a gente tá tendo uma maior procura pelo fruto. Então, a gente tem que ter um cuidado e, por isso, a nossa preocupação de estar implantando essas unidades demonstrativas para tentar distribuir”.

A conscientização em torno das riquezas da guavira vem se expandindo tanto que será dedicado um espaço para o plantio na principal área verde de lazer da Capital, o Parque das Nações Indígenas. “É uma ação da Semagro [Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar]. Serão aproximadamente 50 mudas que deverão ser destinadas ao local. As mudas já estão prontas, apenas estamos aguardando uma pausa nesse período de chuva”, informa a pesquisadora.

Aline Lira – gência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer)

Fotos: Dunga

ALMS CORTESIA
TJ MS